Modelo Dinâmico & Estrutura na Psicopatologia Junguiana…

interpretação Junguiana/ Eleanor Madruga Luzes

RESUMO

Este artigo procura descrever o modelo de estrutura de funcionamento da psique na visão Junguiana, através de exposição utilizando para facilitar a apreensão de conceitos, o uso de esquemas de funcionamento, da psique: ao nascer, durante o período de formação do ego, e de como se dá: a formação de complexos, o acontecer neurótico e o psicótico. A importância dos símbolos e das sincronicidades como fatores de orientação do trabalho de interpretação terapêutico. Enfatiza este trabalho uma visão de cunho dominantemente energético em que devem se processar os critérios de hierarquia a serem seguidos para que a terapia possa ter o melhor resultado, respeitando sempre a economia psíquica.

Palavras-chaves: estrutura psíquica – Jung – Interpretação.

Um dos grandes problemas que tem sido encontrado, especialmente dentro da literatura neo-Junguiana, é o da adaptação de um modo de operar na análise Junguiana, só que usando referenciais freudianos. Um fato comum é a simples troca de personagem da mitologia grega para explicar um caso clinico. Não é mais Édipo, e passa a ser tantas figuras míticas, quantas sejam selecionadas. Existem muitos livros que discorrem sobre as relações entre estória clínica e mito.

Na verdade a compreensão de como ocorre o funcionamento da psique dentro da visão Junguiana, é bastante complexo, e obriga a se ter em vista um referencial energético, uma tentativa de visualização do modelo, está exposto nas figuras 1 e 2 (as duas abaixo, respectivamente)

          FIGURA 1                                                                                            FIGURA 2

Figura 1                                                 image

Deste modo observaremos que a possibilidade de alguém ficar possuído por um só padrão arquetípico, como uma figura mítica de ampla expressão na vida do indivíduo, faria pressupor a inativação do universo de eventos determinados pelos complexos e pelo próprio inconsciente, o que na prática exigiria que tal arquétipo fosse dotado de uma incomensurável carga energética. Assim a complexidade de manifestações da psique humana é o comum na prática clínica, e os exageros temáticos, tendem a ocorrer, muito mais pela tendência reducionista de terapeutas, atrelados ainda a necessidade de se utilizar a ideia de causa-efeito. A psicologia precisa começar a abarcar as complexidades, as coisas que são, e não são ao mesmo tempo, lidar com o imprevisível, ao invés de rotular à priori, posições. Antes de mais nada, este artigo busca chamar a atenção para o fato que já é tempo de se ver o mais livre possível de pré-concepções, para melhor observar nossos pacientes.

A vasta obra Junguiana, deu uma contribuição em muitas vertentes: relativa a estrutura da psique, o funcionamento da energia psíquica e a importância dos símbolos que dentre várias funções exerce também a de dínamo, o que permite na terapia de orientação junguiana poder trabalhar sob bases totalmente diversas.

De importância fundamental é a teoria sobre complexos, demonstrada através de psicologia experimental, por JUNG (1981,b), o método aí estudado, na totalidade do livro, é utilizado em criminologia até os dias de hoje.

Inicialmente Jung valeu-se de um cronômetro, com graduação de quinto de segundo, para medir o tempo de reação à exposição de palavra-estímulo e palavra-resposta. Seguiu-se, a experiência com galvanômetro, aonde o gás carbônico medido denunciava complexos, depois usou voltímetro medindo a intensidade de corrente elétrica nas situações emocionais que demonstravam complexos afetivos. Verdade é

que, com a sofisticação tecnológica, a precisão destas investigações permanece. Há um fato básico que se estabelece; o complexo muda o funcionamento psíquico e corporal de um indivíduo.

O que JUNG (1998) define como Complexo:

“é um aglomerado de associações – espécie de quadro de natureza psicológica mais ou menos complicada – às vezes de caráter traumático, outras, apenas doloroso e altamente acentuado. Tudo o que se acentua demais é difícil de ser conduzido”…. “por ser dotado de tensão ou energia própria, tem a tendência de formar, também por conta própria, uma pequena personalidade” (pg. 86).

Ele se forma a partir de uma estrutura com a qual o indivíduo nasceu, e a maneira como esta pode absorver os eventos ocorridos durante a vida intrauterina. Aqui, segundo as mais modernas pesquisas ligadas a psicologia peri-natal, aliada aos achados encontrados na clínica, sabemos que a estrutura de arquétipos começa a se definir, no sentido de quem tem maior dominância naquela psique em específico.

O nascimento, e o período de tempo que o envolve, seja o pré-parto, seja as primeiras horas do nascimento, terão enorme importância na disposição energética de arquétipos, hoje há uma vasta literatura que envolve estudos antropológicos, sociológicos, psicológicos como o de DANSEY (2002) pesquisáveis mesmo pela Internet, num site que será citado na referência bibliográfica.

É de imensa importância considerar a genealogia do indivíduo, pois arquétipos são herdados, assim como complexos, o que determinam as sagas de família. É comum na clínica observar-se pessoas que estão com estórias pendentes a várias gerações.

Nos primeiros 4 anos de vida, esta estrutura relacionar-se-á com seu meio, de modo determinado pelas tendências, e de acordo com a carga arquetípica que possui, e assim criara até os 4 anos de idade um ego, ainda tênue, que estará consolidado aos 7 anos. (Figura 3 e 4, as duas abaixo, respectivamente).

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Podemos observar a existência de complexos flutuando na determinação do nosso fluxo de ideias. A observação é simples. Tal como se ficarmos observando num céu estrelado, uma determinada estrela, não o faremos por muito tempo, pois logo outra e outra mais, tomará nossa atenção. Do mesmo modo se nos colocamos em estado de reflexão profunda, manter a mente sem nenhum pensamento exige esforço e treinamento. Mas no momento o que importa, é saber quem comanda esta atividade incessante da mente, visto que não é o ego, o qual foi definido por JUNG (1984):

“A consciência do eu é um complexo que não abrange o ser humano em sua globalidade: ela esqueceu infinitamente mais do que sabe. Ouviu e viu uma infinidade de coisas das quais nunca tomou consciência. Há pensamentos que se desenvolvem à margem da consciência, plenamente configurados e completos, e a consciência os ignora totalmente. O eu sequer tem uma pálida ideia da função reguladora e incrivelmente importante dos processos orgânicos internos a serviços da qual está o sistema nervoso simpático. O que o eu compreende talvez seja a menor parte daquilo que uma consciência completa deveria compreender”. (pg. 334).

E ainda afirma JUNG (1998) o ego é um aglomerado de conteúdos altamente dotados de energia e, assim, quase não há diferença, ao falarmos de complexos e do complexo do ego.” (pg.86) o texto ele ainda detalha: “o eu é uma espécie de complexo, o mais próximo e valorizado que conhecemos. É sempre o centro de nossas atenções e nossos desejos, sendo o cerne indispensável da consciência” .(pg. 29, c) O contínuo de acontecimentos mentais que percebemos ao tentarmos refletir de modo profundo, guarda uma relação importante com o inconsciente, e se nos detivermos a prestar a atenção a existência de temas recorrentes, e mesmo por trás deles, sentimentos constantes, nos avizinharemos dos complexos dominantes numa pessoa.

Para visualizarmos o que seria um complexo, lembremos o giro de uma espiral. Assim seria a imagem de um complexo criado de resíduos vindos de diversos lados da psique e se constelando. Quão próximo estiver da consciência-ego, quão mais intensamente irá afetar o funcionamento deste ( Fig. 5, abaixo)

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Na verdade vai acontecer daquela pessoa tender de modo constante a padrões de comportamento, ela própria às vezes poderá se queixar de algo que lhe “atrapalha”, pois na verdade não é o ego, a cede da vontade da pessoa que comanda, mas sim o complexo, que deslocou a consciência e o ego do individuo, pondo ambas as estruturas a seu serviço. Neste sentido podemos dizer que a força do complexo determina a diminuição da liberdade do eu de uma pessoa.

Quando um complexo psíquico gravita alterando a consciência, e mais especificamente o complexo-ego, o que observamos é que muitas das funções do ego ficam comprometidas e outras, se ele domina há muito tempo a vida da pessoa, podem ocorrer que, particularidades existentes neste ego nunca tenham se manifestado, permanecendo na sombra. O que JUNG (1971), define por sombra:

A parte inferior da personalidade. A soma de todas as disposições psíquicas pessoais e coletivas, que não são vividas devido a sua incompatibilidade com a forma de vida eleita conscientemente e se constituem em uma personalidade parcial relativamente autônoma no inconsciente, com tendências antagônicas. A sombra se comporta a respeito da consciência como compensadora, sua influência, pois, pode ser tanto negativa como positiva. Como figura onírica a sombra tem o mesmo sexo do sonhador. Como parte do inconsciente (vê-se aqui) pessoal, a sombra pertence ao EU, porém como arquétipo (vê-se então) no “adversário”, pertence ao inconsciente coletivo. A aquisição consciente da sombra,é o trabalho inicial da análise. A omissão ou supressão da sombra, assim como a identificação do EU com ela, pode levar a desdobramentos perigosos. Posto que a sombra está próxima ao mundo dos instintos, é indispensável tê-la em conta constantemente”.(pg. 419)

Na realidade a sombra habita o individuo que geralmente não a reconhece em si, tendendo a projeta-la nos outros, e os aspectos que ela contém podem ser não só desagradáveis, mas podem se ocultar talentos, capacidades e valores positivos, aos olhos do individuo, só que nunca reconhecendo-se deles portador.

O mundo da psique é um infinito de aspectos e funcionamentos simultâneos, pois o que nele ocorre em extraordinárias velocidades são tensões e transformações. O movimento, é a única realidade que se pode atribuir como fixa. Há aí uma estreita relação com o que entendemos por cosmo, como lembra JUNG (1981,a):

“A probabilidade da existência de uma psique inconsciente talvez seja comparável à de um planeta que ainda não se descobriu, mas de cuja existência se suspeita devido às interferências em uma órbita planetária conhecida. Infelizmente não dispomos de um telescópio que viesse em nosso auxílio e nos confirmasse as suspeitas. Com a introdução do conceito do inconsciente, o conceito de alma estendeu-se para a fórmula: “psique = consciência do eu + inconsciente”.(pg. 87)

Como relata LUZES (2002):

“Observando na clínica o relato trocado entre irmãos que passaram as mesmas experiências na infância, podemos notar que os complexos, e até a inexistência deles, face as mesmas experiências. Em tais casos, antes de inferirmos sobre a carga arquetípica diferente destas pessoas, deveremos submeter a experiência mesma a uma gama de considerações: qual era o humor do indivíduo que viveu a experiência, quais eram as circunstâncias das relações entre criança-figura parental, ou outra qualquer vivência significativa, naquele momento dos acontecimentos relatados. E depois de uma análise do momento individual, ainda necessitaremos de um inventário de outras vivências introjetadas de maneiras diferentes, para concluir a peculiaridade da constelação arquetípica que tinge como uma lente colorida o experienciado, e permite a passagem de algumas cores, mas intercepta ou anula a percepção de outras.(Fig. 6, abaixo).

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Arquétipos como os define JUNG(1998): “ significa um ”Typos”(impressão, marca-impressão), um agrupamento definido de caracteres arcaicos, que, em forma e significado, encerra motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore”. (pg.. 54). E ainda em JUNG(1984):

“O arquétipo representa a probabilidade psíquica, porque retrata os acontecimentos ordinários e instintivos em uma espécie de tipos”, (pg. 520 ) no mesmo livro ele dispõe: (1984): “É preciso sempre dar-se conta de que aquilo que entendemos por “arquétipos” é, em si, irrepresentável, mas produz efeitos que tornam possíveis certas visualizações, isto é, as representações arquetípicas” (pg. 219).

Sabendo da matriz arquetípica, saberemos da tendência de formação de complexos de um indivíduo. Na verdade isto tende a permanecer ao longo da vida. E é um dos pontos importantes da análise, ajudar os analisados a se darem conta das suas tendências de “erro do observador”, a fim de que possam experimentar novos modos de ver, o que implica em menos força da constelação de complexos agindo sobre o ego, e a possibilidade de percorrer uma gama maior de experiências de vida, ao invés de repetições de ciclos de experiências equivalentes.

O analista ao observar o paciente, ou seja, a atitude dele, a linguagem corporal, a voz, sua entonação, musicalidade, estilo de apresentação, expressão do falar, relato de como está vivendo, criticas que faz sobre seu modo de viver, percebendo o que é disfuncional, como relata sua história, e a maneira como a enfrentou. Tudo isto informa a respeito do ego, sua força, sua condição de estar gravitando sob a influência de que tipos de complexo, donde deduz-se possíveis arquétipos ativados. JUNG (1981,a):

Se alguém sofre de histeria, neurose de medo ou fobia, isso pouco importa, ao lado de uma constatação tão importante como a de que o paciente é filhinho de papai, por exemplo. Este último diagnóstico nos dá uma informação fundamental sobre o conteúdo da neurose, e as dificuldades que poderão ocorrer durante o tratamento. Em psicoterapia, o reconhecimento da doença, depende por isso, muito menos do quadro clinico da enfermidade, do que dos complexos nela contidos. O diagnóstico psicológico visa ao diagnóstico dos complexos e, por conseguinte, à formulação de fatos que seriam antes camuflados do que mostrados pelo quadro clínico da doença. A origem do mal, propriamente dita, tem que ser detectada dentro do complexo, que representa uma grandeza psíquica relativamente autônoma. O complexo prova sua autonomia pelo fato de não se ajustar à hierarquia da consciência, ou seja, de opor uma resistência efetiva à vontade. Neste fato, facilmente constatável, na prática, está a causa da crença milenar, de que as psicoses e as neuroses psíquicas, são possessões, pois o observador ingênuo não consegue fugir à impressão de que o complexo, representa algo como um governo paralelo ao eu..” (pg. 83)

Ao realizarmos o trabalho de analise, precisamos ter em mente, que o funcionamento da psique, a qual, é um sistema relativamente fechado. Isto quer dizer, que não funciona aqui a lei de Lavoisier “na natureza nada, se cria nada se perde, e tudo se transforma”. Na verdade a concepção física de energia psíquica que Jung propõe, faz pressupor situações que respondem a estruturas físicas da teoria quântica. Acharemos aqui coisas como “transição descontínua” (o que na física refere-se aos saltos dados pelos elétrons, que mudam instantaneamente, de qualidade, dando os saltos quânticos).

È muito importante reforçar, o que já foi mencionado, que no referencial Junguiano não podemos pensar sobre energia dentro dos ditames da física Newtoniana, e raciocinar com causa e efeito. A visão da dinâmica psíquica aqui, é mais complexa. Muitos eventos se apresentam simultaneamente, e a este conjunto de eventos, o analista deve ajudar ao paciente a se entender com eles.

Um fato é importante a considerar no funcionamento psíquico, especialmente na dinâmica dos complexos que se desconstelam, assim como a dança que fazem dentro do inconsciente, é o fator tempo, e JUNG (1998) ressalva: “Quando se fala em dinâmica e em processos, o fator tempo mostra a sua importância e aí a gente provoca todo o preconceito do mundo, só porque usou a palavra quadrimensional” (pg. 74).

Vemos 2 fenômenos se passarem: progressão e regressão de energia psíquica, que como a sístole e diástole cardíacas, ocorrem naturalmente. Quando a energia está sob regressão (podendo dizer introvertida), a adaptação exterior fica comprometida, daí a dificuldade natural da consciência em deixar se submeter a este movimento, mas o que ocorre depois de modo natural é a progressão (podendo dizer-se extroversão) não necessariamente trazendo uma nova estrutura de adaptação ao mundo exterior, pois o movimento é natural, e não necessariamente fala de evolução.

Para melhor compreendermos como os fenômenos se passam, imaginemos que cada um dos lugares têm meios de constituição diferentes: assim o inconsciente seria um meio de ar, já a consciência de água, e o ego teria constituição que metaforicamente seria um gel. Este entendimento de meios diferentes, facilita a percepção da velocidade de fenômenos que ocorrem, segundo o meio em que se dão.

Segundo JUNG o já havia observado em (1984) “o mecanismo psicológico que transforma a energia, é o símbolo” (pg. 44). Ele funciona como um dínamo, que põe em curso um processo de transformação. E encontramos aqui a importância dentro da visão junguiana de estarmos atentos aos sonhos, a produção criativa, a imaginação ativa, as sincronicidades. Onde os símbolos estiverem, serão os transformadores de energia, que alterarão o curso dos acontecimentos. JUNG (1984).

“Somos porém, de opinião que vale a pena adotar um ponto de vista energético, a respeito dos fenômenos psíquicos, porque são justamente as relações quantitativas, cuja existência no psíquico é impossível negar, que encerram possibilidades de conhecimento, que só uma consideração qualitativa ignora” (pg. 15).

Uma vez que se tenha compreendido, que a energia e seus movimentos balizarão para o terapeuta o acontecer psíquico, haveremos então de considerar que comumente em clínica, encontraremos pessoas em que a consciência trava algum tipo de embate com o inconsciente. Daí Jung considerar de extrema importância aquilo que ele chamou de Função Transcendente, que nada tem a ver de metafísico, porém tem caráter quase matemático. Ela une os conteúdos conscientes e inconscientes.

Frequentemente o paciente quando procura o terapeuta, é porque algo se apoderou de sua consciência, e ele não está conseguindo manejar mais no mundo (a queixa mais comum) como gostaria, ou não está bem consigo mesmo, numa crise existencial sem maiores consequências sobre o mundo exterior (menos frequente).

Em geral seu relato, começa por queixas que já denunciam os pontos vulneráveis de pressão do inconsciente, a que o ego está submetido. Nestes relatos aparecem figuras carregadas de projeções; seja que isto transparece pela descrição de relações em geral conflituadas, seja por relatos de sonhos, ou mesmo por queixas somáticas, que simbolizam em si determinadas projeções. Cabe ao analista uma escuta livre, para fazer o papel de quem ajudará o paciente a ativar sua função transcendente, portanto a realizar um diálogo com seu mundo interior. O esquema abaixo (Fig. 7) tenta mostrar como é o giro da Função Transcendente, que na verdade é, em última análise uma comunicação adequada entre o ego e o Eu Superior, ou Arquétipo do Self (responsável pela produção dos sonhos)

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Como já falamos sobre energia no sentido qualitativo, é bom lembrar o lado quantitativo. Assim, para tal intensidade de sintoma, algo está falando leve ou gritando dentro do indivíduo.Deste modo por exemplo, se temos um paciente com Síndrome de Pânico, temos alguém que tem todos os sinais de alerta ligados, donde, algo muito grave está se passando, e o ego não toma conhecimento.

De outro modo, uma depressão pode falar de uma quase falência, da estrutura psíquica de lidar com a vida. Pela monta da depressão, temos ideia de quanto de transformação terá de haver na vida daquela pessoa, pois temos pela força da expressão sintomática o quanto de energia represada está envolvida.

O fato de ser muito, não significa maior dificuldade necessariamente. Aí lembramos a questão do “salto quântico”.

Os sonhos produzidos além de os vermos pela linguagem simbólica, devemos considerar também quanto de energia foi usado para sua produção. Segundo JUNG (1998) “Os sonhos são a reação natural do sistema de auto-regulação psíquica” (pg.. 121). Podemos usar a metáfora da ideia de fazer um filme. Levando em considera. Vão os recursos usados, algo que poderíamos dizer “de fabricação caseira”, fala de um ajuste fino, do que o fazedor de sonho, o Self, está mostrando para o ego. Se no entanto temos uma “superprodução”, precisamos então de reconhecer, que uma movimentação de energia psíquica maior está em jogo, são os sonhos marcantes e raros para uns e frequentes em pacientes psicóticos.

Ao longo do processo, muitas vezes iremos nos deparar, com o recolhimento de projeção, e aqui, usaremos a metáfora do cosmo, e imaginemos um corpo entrando na atmosfera da terra. Sendo de grande proporção causará um choque, se cair no mar, uma gigantesca onda se formará. Daí concluiremos que não ocorrerá recolhimento de projeção, sem que ocorram eventos, muitas vezes físicos, muitas vezes sincronicidades, mas não passarão desapercebidos.

Sincronicidades são fenômenos os quais JUNG (1984) diz que se passam em três categorias:

“1. Coincidência de um estado psíquico do observador com um acontecimento objetivo externo e simultâneo, que corresponde ao estado ou conteúdo psíquico, onde não há nenhuma evidência de uma conexão causal entre o estado psíquico e o acontecimento externo e onde, considerando-se a relativização psíquica do espaço e do tempo, acima constatada, tal conexão é simplesmente inconcebível.

2. Coincidências de um estado psíquico com um acontecimento exterior correspondente (mais ou menos simultâneo), que tem lugar fora do campo de percepção do observador, ou seja, especialmente distante, e só se pode verificar posteriormente.

3. Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento futuro, portanto, distante no tempo e ainda não presente, e que só pode ser verificado também posteriormente.”(pg. 529).

Tão logo ocorra o recolhimento de uma projeção, algo do complexo se desconstela, daí uma energia fluiu para a consciência, e neste momento ela e o ego passam a operar com um excedente de energia, que não será o que se manterá constante. Podemos dizer que ocorrerá uma certa inflação de ego, sendo importante neste momento saber que decisões tomadas neste instante, podem não ser as mais sensatas Pois o indivíduo que então está se sentindo muitíssimo bem, tenderá a avaliar suas capacidades acima das que realmente possui. O fenômeno é fugaz, e uma nova constelação se avizinha, e segue o curso do processo. Pois a energia que passou e em parte se fixou no ego e consciência, expandindo-as (Fig. 8) foi para dentro do inconsciente, ajudando a criar uma nova configuração, que merece outro direcionamento de atenção no trabalho terapêutico.

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Muitas vezes parece ao paciente, que ele está passando pelo mesmo lugar. De acordo com a estrutura arquetípica, o processo o fará percorrer, uma espiral ascendente, que poderíamos dizer que tomando um ponto de uma linha por lá, ele passará, só que sempre “numa oitava acima”,caso o processo esteja caminhando sem atropelos. Isto

porque tanto no trato com o material exposto, como no material onírico, o terapeuta deve respeitar uma hierarquia, que é dada pelo inconsciente do analisando. Não é função do terapeuta escolher, mas colocar-se em sintonia com o fluxo natural do que o paciente informa. A atitude da psique do terapeuta está representada na (Fig. 7).

Como já mencionado, um complexo quando se desconstela parcial ou totalmente, que fazia muita pressão sobre a consciência-ego, libera uma grande energia que amplia imediatamente aquele conjunto, e depois segue puxando outra estrutura para ser trabalhada. Se no entanto a segunda estrutura é “escolhida” de ser tratada pelo terapeuta, pode ocorrer, nenhuma resposta, num ego mais forte, ou desorganização, em um mais fraco, pois não há condição energética para transmutar o complexo que fica muito distante da consciência. A percepção desta hierarquia é vital no processo de orientação do trabalho terapêutico, é o que está na base do porque interpretar isto num sonho e não aquilo, ainda que existam uma infinidade de possibilidades, que sempre podem ser usadas, aguardando-se o momento oportuno.

Dentro do modelo Junguiano, observamos que na neurose temos um ego funcionante, mesmo que com dificuldades. A maneira como o individuo se desenvolveu num processo neurótico foi criando uma subordinação do ego aos complexos, a pessoa pode passar por intenso sofrimento, ainda que nem por isto veja-se de pronto em condições de mudar. Há um longo caminho a percorrer com inúmeros resgates, partes que ficaram em lugares da pisque. Um exemplo claro disto é a frequência de sonhos onde o sonhador volta a lugares do seu passado na tentativa de resgatar partes de sua energia psíquica retida, e não é à toa que dispõe de pouca energia para poder executar mudanças, mesmo que lhes pareçam fundamentais. Outro exemplo é o que envolve aspectos diversos da sombra, com a respectiva dificuldade de entrar em contato com ela. Fato é que ao travar contato com estas partes, e integrá-las na consciência, não se pode deixar de apreciar que ocorre uma clara evolução no humano, de âmbito não só pessoal, mas antropológico, pois tornar-se mais inteiro é um desafio da própria evolução humana.

A temática de forte matiz do inconsciente pessoal, é encontrada em muitas situações de neurose, embora o pano de fundo do inconsciente coletivo, sempre dê o contorno das tendências de constelação de complexo num indivíduo.

No acontecer psicótico, temos uma invasão importante do inconsciente coletivo sobre o ego, com consequentes fenestramento deste. Em razão disto, surge um ser que tem dificuldade de operar no real, pois a percepção dele esvaneceu-se ao sabor de ideias autônomas, “vozes” que se declaram como portadoras da direção a seguir pelo ego, que fica à deriva, com poucos recursos para se defender. Deste modo, muitas vezes estes pacientes precisam de ajuda, suporte do mundo de fora. Mergulharam em camadas densas. Os sonhos destes pacientes tem forte material arquetípico. Ao terapeuta é necessário cuidado para não cair no fascínio de interpretar tais imagens, cujo benefício muitas vezes logra duvidoso. É imperioso ajudar o ego a se estruturar.

Na visão de Jung na psicose, podemos observar mais fartamente o aparecimento de fragmentos de mitos, e mesmo mitos com vários elementos pertencentes a outros mitologemas, o fato é, que precisamos entender que para um mito puro se manifestar, é preciso que não só a consciência tenha se fragmentado, e o ego fenestrado, mas é também necessário que a complexidade (o aglomerado de outros complexos que transitam no inconsciente) tenha praticamente ficado inativa, para que um único material puro se manifeste. Há psicoses, onde a situação monotemática pode ocorrer, mas mesmo nestes pacientes, tons de estruturas outras vindas do inconsciente deixam rastro no comportamento. Enfoco isto, pois, com a tendência do observador-terapeuta de querer “enquadrar casos clínicos em conto de fadas ou mitos”, a observação psicoterápica fica comprometida, visto que quem cuida deve procurar uma atitude interna, em que seu próprio ego esteja em relação com seu self, (Fig.7).

No esquizofrênico, o complexo sofre uma deterioração particular, como se ele se auto-aniquilasse, impedindo sua capacidade de expressão e comunicação, alterando também a afetividade. A essência destas manifestações têm sua sede no inconsciente coletivo, e não no pessoal. Existe nestes pacientes, dois aspectos a considerar: um fisiológico e outro psicológico, que merecem devido tratamento.

Tais tratamentos, para os terapeutas, significam tarefa laboriosa, e é importante lembrar, o problema do contágio.Basta que observemos o estado precário que costumam ter as instituições que tratam destes pacientes, para vermos retratados os efeitos deste contágio, sem falar que, na visão junguiana, para tratar destes paciente os terapeutas devem ser indivíduos de “constituição preservada”, para poder fazer frente a esta árdua tarefa. E mesmo assim, são parcos os resultados no tratamento de esquizofrênicos.

O grau de inteligência e instrução são favoráveis, segundo Jung no prognóstico, talvez por retratarem aquele ego que na vida já havia feito alguns avanços. Portanto alguma força tinham, ou a intensidade dos arquétipos não era tão brutal. Daí que após a grande invasão, possuíam algo para poder alavancar uma saída.

É de grande importância conversar sobre os sintomas, especialmente após os surtos, e tentar fazer com que o paciente possa integrar o máximo estas experiências, como se trabalhássemos com material de sonho. Mas deve ser evitada a fascinação. JUNG (1986) entende que:

Em geral, o grau de inteligência e instrução é de grande importância para o prognóstico terapêutico. No caso de diminuição dos intervalos agudos ou nos estágios iniciais, a conversa esclarecedora a respeito dos sintomas e, em especial, dos conteúdos psicóticos me parece de valor inestimável. Na medida em que a fascinação provocada pelos conteúdos arquetípicos é muito perigosa, acredito que o esclarecimento do sentido impessoal, mais geral, ofereça uma ajuda mais significativa do que a discussão comum sobre os complexos pessoais. Esses complexos são, em última instância as causas originárias que evocam as reações e compensações arcaicas, podendo a qualquer hora gerar as mesmas consequências. Por isso, com muita frequência, se deve ajudar o paciente a desviar seu interesse, ao menos temporariamente, das fontes pessoais de excitação, oferecendo-lhe uma orientação de ordem mais geral e um horizonte mais amplo de sua situação confusa. Via de regra, tentei transmitir aos pacientes inteligentes o maior número de conhecimentos psicológicos possíveis. Quanto maior o conhecimento que possui a respeito, melhor se afigura o prognóstico já que, ao se ver munido com os conhecimentos necessários, poderá compreender as novas irrupções do inconsciente e deste modo, assimilar os conteúdos estranhos, integrando-os a seu mundo consciente.Assim, nos casos em que os pacientes se lembram do conteúdo de sua psicose, busco discuti-lo o mais profundamente a fim de fazê-los entender o que se passa”. ( pg. 254-255).

Durante o surto, é preciso que o terapeuta fique atento a tudo que ocorre, ajudando a acelerar a saída, mas depois tentar trabalhar para evitar a amnésia que se instala, caso não seja feito ocorre a recorrência de surtos, com a mesma temática, quase sempre. A possibilidade de trabalho com o material no pós-surto é de fundamental valia para uma recuperação ampla.

É da maior importância enfatizar que ao terapeuta, não cabe tendência de distorção da hierarquia do que se faz necessário trabalhar, pois não é segundo sua “vontade”, ou tendência inconsciente, que o critério de interpretação deve ser conduzido.Como ilustra o desenho da figura 9.

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A atitude terapêutica adequada, é a de reflexão como sugere a figura 7, onde o ego-consciência observa, mantendo uma atenção voltada para seu próprio self, e assim consegue estabelecer uma observação do self (no sentido da totalidade) da psique do paciente. Deste modo a percepção de sincronicidades, merece grande atenção, pois é seguro indicativo de movimentos do processo, além da observação de escolha na maneira de interpretar sonhos ou material criativo, usando-os como símbolos para otimizar resultados. Pois em terapia Junguiana, não só se visa a transformação das disfunções, mas, se o inconsciente do paciente indicar, poder desenvolver o processo de individuação. Descrito por JUNG (1971) “Emprego a expressão “individuação” no sentido daquele processo que engendra um “individuo” psicológico, quer dizer, uma unidade a parte, indivisível do Todo” (pg. 415). Portanto, uma pessoa que consegue uma sintonia com seu ego-consciência e self, fazendo este eixo ego-self funcionar numa relação dialética criativa. É importante no diálogo terapeuta paciente ter em vista o tipo psicológico de ambos; (1981,c): A distinção de quatro temperamentos, que herdamos da Antiguidade, pode-se chamar apenas uma tipificação psicológica, desde o momento em que se pode quase afirmar que os temperamentos não são outra coisa senão compleições psicofisiológicas.

O esquema que ilustraria a relação terapêutica, em que o terapeuta devidamente atento ao seu próprio eu superior, inspira o paciente ao mesmo diálogo dentro de si, então seria o da figura 10:

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O diagrama acima deixa claro, que o que se procura na relação terapêutica dentro da visão Junguiana não é a transferência, se ela ocorrer, demonstra que o paciente pretende uma relação ego-ego (projetado), que acaba sendo um jogo, que não ajuda na relação eu-tu, início da relação de duas individualidades, fundamental para o processo de individuação. Sobre ela nos diz JUNG (1981,a):

“Quando as sessões começam a ficar monótonas e repetitivas, a ponto de sugerir que o processo esteja em vias de paralisação, ou então, quando surgem os conteúdos mitológicos, ou arquetípicos, está na hora de abandonar o tratamento analítico-redutivo e de tratar os símbolos anagogicamente, ou sinteticamente, o que equivale ao método dialético e à individuação”. (pg. 17).

Adiante JUNG na mesma obra em (1981,a) afirma: “tanto aqui como na Índia, a experiência do si mesmo, nada tem a ver com intelectualismo, mas é uma experiência vital. O processo que conduz a ela foi por mim denominado processo de individuação .

Na verdade, o processo de individuação implica numa relação dialética de alta qualidade aonde ambos; terapeuta e paciente estão numa busca de ampliação da harmonia na vida no ser humano.

REFERÊCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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JUNG, C. G. (1984) trad. A Dinâmica do Inconsciente. In: Obras Completas de C. G. Jung vol. VIII. Petrópolis, Editora Vozes.
___ (1998) trad. A Vida Simbólica. In:Obras Completas de C. G. Jung vol. XVIII/I. Petrópolis, Editora Vozes.
___ (1981) trad. A Prática da Psicoterapia In.Obras Completas de C. G. Jung XVI/I. Petrópolis, Editora Vozes. (a)
___ (1981) trad. Experimental Reseearches In:Collected Works of C. G. Jung vol II. New Jersey, Princeton University Press. (b)
___(1971) trad. Recuerdos, Sueños, Pensamentos. Barcelona, Biblioteca Breve
___(1986) trad. Psicogênese da Doenças Mentais In: Obras Completas de C. G. Jung vol. III. Petreópolis, Editora Vozes.
___(1981) trad. Tipos Psicológicos. Rio de Janeiro, Zahar Editores. (c) LUZES, E. M (2002). Apostila Sobre Modelo Dinâmico em C. G. Jung e a Apresentação Gráfica da Estrutura Psíquica, Aula proferida em 4/12/2002 no Instituto de Psicologia da UFRJ.
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