Atenção, memória & transtornos mentais…

A Atenção é uma atitude mental onde a atividade psíquica é concentrada sobre um estímulo específico. Uma maneira importante pela qual a percepção se torna consciente é através da Atenção que, em essência, é a focalização consciente e específica sobre alguns aspectos ou algumas partes da realidade. Assim sendo, nossa consciência pode, voluntariamente ou espontaneamente, privilegiar um determinado conteúdo e determinar a inibição de outros conteúdos vividos simultaneamente. Portanto, reconhece-se a Atenção como um fenômeno de tensão, de esforço, de concentração, de interesse e de focalização da consciência.

Atenção pode sofrer alterações em todos os transtornos mentais e emocionais. Mesmo quando não existam alterações psíquicas tão evidentes, como é o caso da ansiedade simples, a Atenção pode apresentar oscilações. Uma série de fatores intra-psíquicos pode modificar a sua eficácia da Atenção mesmo dentro dos limites da normalidade. Vários estados emocionais podem alterar a capacidade de Atenção, ora alterando sua intensidade, ora alterando sua tenacidade ou sua vigilância. Sob a influência de determinados alimentos, de bebidas alcoólicas e de substâncias farmacológicas, aAtenção também pode experimentar alterações em seu rendimento e em sua eficiência.

A Memória, no sentido estrito, pode ser entendida como a soma de todas as lembranças existentes na consciência, bem como as aptidões que determinam a extensão e a precisão dessas lembranças . De modo geral a Memória necessita de duas funções neuropsiquícas fundamentais; a capacidade de fixação, que é a função responsável pelo acréscimo de novas impressões à consciência e graças à qual é possível adquirir novo material mnemônico, e a capacidade de evocação, ou reprodução, pela qual os traços mnêmicos são revividos e colocados à disposição livremente da consciência.

A Atenção pode ser entendida como uma atitude psicológica através da qual concentramos a nossa atividade psíquica sobre um estímulo específico, seja este estímulo uma sensação, uma percepção, representação, afeto ou desejo, a fim de elaborar os conceitos e o raciocínio. Portanto, de modo geral a Atenção parece criar a própria consciência.

Alguns autores consideram a Memória em si, um processo puramente fisiológico, enquanto a fixação e a evocação mnêmicas das lembranças seriam atos psíquicos e vividos pelo indivíduo.

Para que uma lembrança seja eficaz é indispensável a compreensão do objeto sobre o qual se polariza a Atenção, condição essa que depende da afetividade e do interesse. Kraepelin já afirmava a lembrança poderia persistir por mais tempo quanto mais claramente (mais compreensivamente) se percebia o estímulo original e quanto mais numerosas e intensas fossem suas ligações com o resto do conteúdo da consciência. Portanto, as lembranças perduram por mais tempo quanto mais são reforçadas pela repetição.

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A Memória como Parte Importante da Consciência…
Para estudar os mecanismos da memória é didático fazer analogia com o mecanismo dos computadores. Tal como os os computadores, nossa mente está equipada com dois tipos básicos de memória: a memória imediata (de trabalho) para tratar a informação do presente momento, e a memória de longo prazo, usada para arquivar durante longo tempo.

Ao contrário do que se pode pensar, nosso cérebro não está continuadamente registando tudo que nos acontece para, num segundo momento, selecionar e apagar o que não é importante. A maior parte dos estímulos com os quais estamos lidando permanece por um brevemente tempo na memória, mais precisamente, na memória imediata ou de trabalho. A analogia que se faz com o computador é com a chamada memória RAM, ou seja, com a memória de acesso aleatório da máquina (Random Access Memory).

Depois de algum tempo esses estímulos trabalhados pela memória imediata se evaporam dando lugar à outros. A memória imediata nos permite realizar os cálculos de cabeça, permite reter números de telefone durante algum tempo, permite continuar um diálogo baseado no início da conversa, permite saber o nome do interlocutor durante algum tempo (diretamente proporcional à importância deste para nós).

Continuando nossa analogia, podemos dizer que a memória de longo prazo seria como o disco rígido do computador, registando fisicamente as experiências passadas na região do cérebro designada córtex cerebral. A córtex, ou a camada exterior do cérebro, contém aproximadamente dez bilhões de células nervosas, as quais se comunicam intensamente trocando impulsos eléctricos e químicos.

Sempre que um estímulo atinge nossa consciência, seja uma imagem, som, ideia, sensação, etc., ativa-se um conjunto destes neurônios, modernamente chamado de “assembléia neuronal“. A teoria baseada nas assembléias neuronais representa um modelo muito convincente para a formulação de uma hipótese a respeito da construção da consciência. Segundo essa teoria, o pensamento consciente é gerado quando vários neurônios de diversas colunas se unem funcionalmente e, atuando harmonicamente e em conjunto, constroem uma assembléia, iniciando assim a formação de um determinado estado consciente. Depois desse novo estado de consciência esses neurônios do conjunto que participou do estímulo nem sempre retomam o estado original. Eles costumam fortalecer as ligações uns com os outros, tornando-se mais densamente interligados.

Quando isso acontece constrói-se uma memória consciente, e o que quer que estimule essa rede ou assembléia trará de volta a percepção inicial sob a forma de recordação. O que entendemos como recordações são, afinal, padrões de ligação entre células nervosas. Uma recordação recém-codificada pode envolver milhares de neurônios abarcando todo o córtex.

Segundo a teoria dos conjuntos de células envolvidas na consciência e memória, os neurônios são capazes de se associarem rapidamente, formando grupos (assembléias) funcionais para realizarem uma determinada tarefa ou apreenderem um determinado estímulo. Uma vez que esta tarefa esteja terminada, o grupo se dissolve e os neurônios estão novamente aptos a se engajarem em outras assembléias, para cumprirem uma nova tarefa . Portanto, esse conjunto, rede ou assembléia de neurônios diluem-se, caso não seja reutilizada, mas, se a ativarmos repetidamente, o padrão de ligações incorpora-se cada vez mais nos padrões de nossos tecidos nervosos.

É devido a essa organização e dissolução dinâmica das assembléias neuronais que podemos comparar a atividade mnêmica fugaz com a memória RAM do computador. Há, ainda, um aspecto quantitativo acerca dessa assembléia neuronal, segundo a qual, quanto maior o número de neurônios recrutados, maior será o tamanho dessa assembléia e, em consequência, maior será a recém criada consciência ou memória, em termos de intensidade e tempo de duração. Contrariamente, se for pequeno o número de neurônios recrutados, a memória resultante será pequena em intensidade e duração.

Os estímulos são registrados na memória de longo prazo mediante repetição ou através de sua carga afetiva. Enquanto a decisão de armazenar ou diluir uma informação possa ser voluntária, a eficácia dessa memorização nem sempre depende de nossa vontade. A eficácia da memória, e indiretamente da consciência que se tem do vivido, é um atributo automático do hipocampo.

Corpo Caloso O hipocampo é uma pequena estrutura bilobular alojada profundamente no centro do cérebro. Tal como o teclado do nosso computador, o hipocampo é como uma espécie de posto de comando. À medida que os neurônios do córtex recebem informação sensorial, transmitem-na ao hipocampo. Somente após a resposta do hipocampo é que os neurônios sensoriais começam a formar uma rede durável (assembléia). Sem o “consentimento” do hipocampo a experiência desvanece-se para sempre.

É aqui que entra a carga afetiva necessária para que o estímulo se fixe na memória de longo prazo. A atitude de “consentimento” do hipocampo parece depender de duas questões. Primeiro, a informação tem algum significado emocional, portanto, tem que ter alguma importância afetiva. O nome de uma pessoa muito atraente tem mais probabilidade de conseguir “autorização” do hipocampo para se fixar no “disco rígido” de nosso computador, do que o nome do jornalista que escreve o obituário do jornal. É assim que nossa consciência se constrói, sempre em conformidade com nossos próprios interesses emotivos.

A segunda atitude do hipocampo é uma imediata analogia, ele avalia é se a informação que está chegando no cérebro tem relação com alguma coisa que já esteve por ai, ou que já sabemos. Ao contrário do computador, que armazena separadamente os factos relacionados, o cérebro procura constantemente fazer associações. Se o estímulo recém chegado tem alguma relação ou correspondência com algum material já armazenado, esse novo fato terá mais facilidade de agregar-se ao dinamismo psíquico. Em suma, usamos as assembléias elaboradas pela experiência passada para captar novas informações.

Através da formação continuada de assembléias neuronais os fenômenos conscientes se sucedem continuamente, cada um diferindo dos demais em duração e intensidade, de acordo com o tamanho das assembléias. Esse dinamismo faz com que a substituição de uma vivência consciente pela que se segue seja muito rápida, conferindo à consciência seu aspecto de continuidade. Aqui devemos lembrar que, também continuadamente, o hipocampo vai selecionando o que fica na memória de longo prazo e o que pertence apenas à memória imediata.

Assim, forma-se uma assembléia neuronal e, numa ínfima fração de tempo, a consciência da vivência se formaria. Essa consciência seria recém formada a partir da mobilização simultânea de um determinado número de neurônios por um período de tempo variável e, imediatamente depois de terminada sua função, seria substituída por outra assembléia (consciência), depois por outra e assim sucessivamente.

Esses arranjos neuronais obedecem uma estrutura muito pessoal que, em seu conjunto, acabam por corresponder (ou contribuir para) ao perfil afetivo e sensibilidade de cada um e, quem sabe até, para a vocação de cada um. É por isso que um mesmo quadro pode impressionar diferentemente as várias pessoas que o observam; alguns se sensibilizam com as tonalidades, outros com o tema, outros até com a combinação quadro-moldura, outros só conseguem memorizar o preço e assim por diante. Podemos constatar essa experiência facilmente retirando o quadro da vista das pessoas e pedindo para elas descreverem o que viram: … cores fortes…. tema triste…. muito grande…. deve valer muito… e assim por diante.

Assim sendo, as condições capazes de perturbar o hipocampo acabam por prejudicar a memória e, consequentemente, a integração da consciência. A Doença de Alzheimer destrói gradualmente esse órgão, portanto, destrói a capacidade para formar novas memórias. O envelhecimento normal também pode causar danos mais sutis. Alguns estudos sugerem que a massa encefálica decresce, a grosso modo e variavelmente, de cinco a dez por cento a cada dez anos.

Exceto em casos mais patológicos, como por exemplo na Doença de Alzheimer ou nos problemas vasculares, a idade por si só parece não perturbar a nossa memória significativamente. A idade, quando muito, torna as pessoas um pouco mais lentas e menos precisas e, embora as médias apontem para o declínio com a idade, alguns octogenários continuam mais incisivos e rápidos que os adolescentes.

Evidentemente existem circunstâncias clínicas capazes de prejudicar o rendimento da memória ao longo dos anos. A pressão sanguínea elevada cronicamente pode prejudicar a função mental. Alguns estudos constatam que ao longo dos anos, as pessoas hipertensas perdem duas vezes mais capacidade cognitiva que aqueles que apresentam tensão sanguínea normal. Também o excesso de álcool ou o funcionamento deficiente da glândula tiróide, assim como a depressão, a ansiedade e a simples falta de estímulo estão associados ao prejuízo da memória.

O Estresse e a Memória
Atualmente um novo problema parece estar associado ao desgaste da capacidade de fixação. É o excesso ou sobrecarga de informação. As informações dos tempos modernos chegam até nós através dos mais variados meios: jornal, revista, rádio, televisão, cinema, fax, carta, email, internet, escola, cursos, etc… Muitas vezes essa avalanche de informações superam nossa capacidade de apreensão eficaz.

Essa dificuldade de apreensão e, consequentemente, de memorização tem muito a ver com o estresse por excesso de estimulação e solicitação. Evidentemente, em curto prazo o estresse até habilita nosso cérebro a reagir mais prontamente aos estímulos, sendo essa a função primária da ansiedade do estresse. Em longo prazo, entretanto, o desgaste supera a eficiência.

Algumas pesquisas na área do estresse calculam que, ao fim de cerca de 30 minutos, os hormônios do estresse (adrenalina e cortisona) começam a desativar as moléculas que transportam glucose para o hipocampo, deixando assim essa parte do cérebro com pouca energia.

Depois de períodos mais longos, os hormônios do estresse podem acabar comprometendo seriamente as ligações entre neurônios e fazendo o hipocampo reduzir ao máximo sua ação, tal como uma espécie de atrofia funcional. Esta espécie de atrofia funcional é reversível se o estresse for curto, mas um estado de estresse que demora meses ou anos, pode acabar inutilizando definitivamente neurônios do hipocampo.

Como vimos acima, quem garante a eficácia da memória, indiretamente da consciência que se tem do vivido, é um atributo automático do hipocampo, portanto, havendo dano dessa estrutura cerebral a capacidade de fixação mnêmica estará prejudicada.

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O Estrogênio e a Memória
As pesquisas que relacionam o estrogênio (hormônio feminino) com a memória foram estimuladas indiretamente, partindo da observação de que as mulheres que tomavam estrogênio reduziam o risco de contrair a Doença de Alzheimer.

A a importância do estrogénio em relação à memória verbal foi testado em mulheres jovens, antes e depois de serem submetidas a tratamento para tumores uterinos. Os níveis de estrogênio dessas mulheres decresciam fortemente depois de 12 semanas de quimioterapia, assim como decresciam também os seus resultados nos testes de retenção da leitura. Mas, quando metade dessas mulheres juntou estrogênio ao regime terapêutico, a memória melhorou prontamente.

As razões para esse efeito protetor sobre a memória atribuído ao estrogênio ainda não são claras, mas o hormônio parece catalisar o desenvolvimento de neurônios no hipocampo e fomentar a produção de acetilcolina, um composto (neurotransmissor) que ajuda as células cerebrais a se comunicarem. Infelizmente, o uso de estrogênio também tem riscos, em especial para as mulheres com predisposição para o câncer de mama.

Foco de Atenção
O aspecto para o qual se dirige a atenção é chamado de alvo (perceptual e motor), por isso e apropriadamente, podemos fazer uma analogia didática do focalizar da consciência com um alvo de tiro. O elemento que, em dado momento, constitui o objeto de nossa atenção, ocupa sempre o ponto central do campo da consciência. O centro desse alvo perceptual corresponde ao grau máximo de consciência e é denominado foco da Atenção. Aí, tudo o que é focal é percebido com atenção em seu redor, porém, existem outros objetos ou fenômenos psíquicos, os quais, sem ter abandonado o campo da consciência, deixam de ser objeto de atenção. Os círculos concêntricos mais próximos exprimem, esquematicamente, a área subconsciente e o círculo mais afastado o inconsciente.

O elemento que, em dado momento, constitui o objeto de nossa atenção, ocupa sempre o ponto central do campo da consciência, portanto, nossa capacidade para concentrar a atividade da consciência em uma só coisa acaba, forçosamente, excluindo total ou parcialmente as demais. Entre as partes deste conjunto composto pela consciência, subconsciente e inconsciente não é possível estabelecer limites de nítidos.

Aspecto Temporal da Atenção
Geralmente a duração de um determinado foco de Atenção é breve. Existe constante passagem da Atenção de uma parte da realidade para outra e isso se dá por várias razões. De um lado, existe na Atenção, como em todos os processos psicológicos, uma forma de saciedade. Esta saciedade tende a inibir a continuidade de Atenção em determinada direção, como se a pessoa estivesse continuadamente em busca de novidades perceptivas. A Atenção tender a mudar, espontaneamente, depois de um período de focalização em uma parte da realidade.

Outra razão para a passagem da Atenção de uma parte da realidade para outra é obtenção de uma certa organização perceptual. É difícil ou impossível, por exemplo, organizar o todo a ser percebido com um único olhar. É preciso passos sucessivos de exploração para que cada parte ou aspecto seja fixado por sua vez.

É importante esses aspectos temporais da organização perceptual e mesmo caso dos padrões estático de certos estímulos, a percepção adequada envolve, invariavelmente, mudanças sucessivas de focos de Atenção. Este é um elemento fundamental para o artista, por exemplo, o qual precisa, construir sua obra de arte de tal forma que o olho do observador seja dirigido numa direção determinada através do quadro ou da estátua. Sem esse elemento organizacional não seria possível a percepção dos detalhes alocados no objeto.

Mais uma razão para a passagem da Atenção de uma parte da realidade para outra é a limitação da quantidade de material que pode ser incluída no foco de Atenção, em cada momento considerado. Um hipotético olho cósmico, se existisse, poderia apreender simultaneamente completamente tudo de uma determinada situação mas, o ser humano e os organismos inferiores, entretanto, podem apreender apenas uma proporção limitada da realidade. Uma forma de estudar o problema do alcance máximo do foco de Atenção é através da análise da amplitude da apreensão.

Esta Amplitude da Atenção se refere ao número máximo de objetos que podem ser percebidos imediatamente. Espalhando um pequeno número de grãos de feijão numa mesa e olhando de relance, procuramos ver quantos grãos existem. Verificaremos que cometermos poucos erros quando os grão são em número de cinco ou seis mas, a partir desse número, começamos a errar mais. Portanto, nossa Atenção se desloca de tempos em tempos para outras partes da realidade porque é limitada a capacidade de apreendermos simultaneamente muitas coisas.

Sob este ponto de vista, a atividade mental consiste num vaivém perpétuo de focalizações da Atenção em acontecimentos interiores, em sensações, em sentimentos, em idéias e em imagens mentais que se associam ou se repelem, segundo as leis do dinamismo psíquico. Serão estes diferentes estados de Atenção que permitem o aspecto dinâmico na atividade da consciência.Em função da atividade predominante, distinguem-se 3 tipos principais de Atenção: sensorial, motora e intelectual.

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Tipos de Atenção
Nossos 5 sentidos podem ser ativados conscientemente para focalizar a Atenção sobre um determinado estímulo. Os condicionamentos, muitas vezes inconscientes, podem proporcionar uma certa atividade de espera, mais ou menos orientada, no sentido de confirmar ou não uma determinada expectativa.

Ao acrescentar mais sal na comida, por exemplo, nosso paladar espera, com certa expectativa, constatar determinado gosto, assim como esperamos ver, momentos antes, determinada cena de acidente ao constatar a direção e velocidade de um carro de corridas. Trata-se da espera pré-perceptiva. Outras vezes, entretanto, quando os resultados fogem completamente da expectativa perceptiva, acontece uma espécie de choque sensorial que dá origem a um estado de surpresa.

Atenção Motora
Na Atenção Motora, a consciência está concentrada na execução de uma atividade física e muscular pré-programada. Ao olhar para um objeto, por exemplo, a pessoa se inclina na direção desse objeto, e o mecanismo ocular atua de forma que os olhos se dirijam ao objeto até que este caia na fóvea; os músculos do cristalino se acomodam de forma que a imagem fique no foco mais claro, etc. Ao ouvir um som baixo a pessoa estica o pescoço para a frente, coloca sua mão atrás da orelha, e pode fechar os olhos a fim de eliminar os estímulos visuais concorrentes na tentativa de selecionar um determinado objeto (sonoro) como foco de sua Atenção. Talvez seja por isso que algumas pessoas têm que tirar os óculos de sol para prestarem mais Atenção em sons ou imagens.

A Atenção Motora se caracteriza também pela tensão estática dos músculos, juntamente com uma hipervigilância da consciência. Esta atividade de espera chamada por Pléron de “atividade imobilizante”, e exige um grande consumo de energia.

Veja-se, por exemplo, a brincadeira de tapa nas mãos. Neste joguete um dos jogadores, aquele que dará os tapas, fica com as mãos espalmadas para cima, enquanto o outro coloca suas mãos sobre as mãos do primeiro. Repentinamente o primeiro tentará retirar suas mãos e estapear as mãos do segundo. Vence o mais rápido. O segundo deve retirar suas mãos, tão logo perceba que o primeiro iniciou o movimento de estapeá-lo.

O papel da eficiência da Atenção, nesses casos, consiste privilegiar os elementos automáticos da psicomotricidade, ao mesmo tempo em que reduz os elementos intelectuais eventualmente atrelados ao movimento. Esta forma de Atenção representa uma espécie de alerta às atividades musculares que devem responder prontamente a determinada situação no sentido de favorecer a adaptação.

Atenção Intelectual
Representa o ato de reflexão e de atividade racional dirigidos na resolução de qualquer problema conscientemente definido. Apesar da divisão da Atenção em Atenção Sensorial, Atenção Motora e Atenção Intelectual, de certa forma a Atenção implica sempre em alguma atividade intelectual, ora orientando os movimentos, ora dando sentido às percepções.

Afeto e Atenção
Um dos fatores individuais de maior influência no processo da Atenção destacam-se as condições do estado de ânimo ou de interesse, os quais podem facilitar ou inibir a mobilização da Atenção. Portanto, o elemento afetivo tem significação determinante no processo da Atenção, admitindo-se que a pessoa só dirige a Atenção aos estímulos que lhe despertam interesse. De fato, ao constarmos que nossa Memória tem mais afinidade para as coisas que nos despertam maior interesse, estamos falando antes, que nossaAtenção (indispensável para a Memória) é mobilizada mais prontamente pela nossa afetividade.

Nossa Atenção sobre algo é tanto mais intensa quanto mais nos interessa esse algo, quanto mais desejamos conhecê-lo e compreendê-lo, quanto mais isto nos proporcione prazer ou satisfação. É por isso que, durante os episódios depressivos, onde o prazer e o interesse estão significativamente comprometidos, a Atenção e a Memória estarão também severamente prejudicadas; por falta de interesse e prazer.

Despertam mais nossa Atenção as coisas com as quais mantemos algum laço de interesse, alguma predileção. Passeando num shopping as pessoas detém-se (prestamAtenção) diante das vitrinas que lhes despertam maior interesse, que mais lhes mobilizam afetivamente. Ao estudarmos a sensopercepção também constatamos o fenômeno de predileção sensorial de acordo com as tendências afetivas, como é o caso do artista, capaz de perceber com mais acuidade a obra de arte. A Atenção seria a principal parte dessa predileção sensorial.

De acordo com o papel que determinado estímulo desempenha ou possa eventualmente desempenhar na vida pessoal, ele exercerá uma força maior ou menor de atração sobre aAtenção. A Atenção realiza uma seleção natural de seus objetivos em função da disposição pessoal, a qual tende a iluminar determinados objetos. A Atenção está sempre dirigida para algo conscientemente desejado e esse tipo de disposição da pessoa para com o objeto é chamado interesse. O interesse e a Atenção estão tão intimamente ligados que não é possível existir Atenção completamente desprovida de interesse (Stern).

Níveis e Distribuição da Atenção…
Ao estudar a extensão do campo de Atenção, julga-se muito mais importante a captação de uma totalidade ou captação do todo significativo, que a quantidade de objetos que a serem captados pela Atenção. Para William Stern, a Atenção é a condição imediata para a produção de uma realização pessoal e suas características consistem num esclarecimento consciente, na concentração de uma força psíquica disponível para o esclarecimento da realidade.

A Atenção da pessoa, num determinado momento pode estar distribuída de várias maneiras no campo da realidade. Pode estar concentrada num único objeto, dando-se pouca Atenção ao resto, pode estar difusamente espalhada, sem que uma parte específica esteja predominantemente em foco ou, por fim, pode estar dividida entre vários objetos, quando então a pessoa procura prestar Atenção, simultaneamente, a duas ou mais coisas. Quanto maior a divisão da Atenção entre objetos, maior a perda de qualidade da Atenção dada a cada parte.

Conforme vimos acima, a amplitude limitada da apreensão comprova que quanto maior a divisão da Atenção menor a sua qualidade, acentuam a necessidade da organização perceptual. Quando algumas partes do campo são organizadas em todos maiores, aAtenção necessária para percebê-las eficientemente será menor do que quando as partes são simplesmente observadas separadamente.

Através da organização e do agrupamento de objetos a serem percebidos podemos estender a amplitude da Atenção. Se separarmos nove grãos de feijão em três grupos de três grãos, podemos vê-los mais facilmente. Este é um exemplo simples do princípio segundo o qual a organização tem como função permitir; à pessoa, dirigir a Atenção para maior quantidade de material.

Podemos ver a mesma coisa, de maneira mais significativa, no desenvolvimento de habilidades específicas ou do treinamento. Não é necessário prestar Atenção a uma atividade bem treinada, pela simples razão de que o todo integrado está tão reunido que pode ser realizado sem Atenção as suas partes isoladas. A inspeção de qualidade numa fábrica, por exemplo, é uma atividade tão treinada que o funcionário é capaz de ater-se rapidamente à qualquer coisa que estiver estranha àquilo considerado desejável. Este funcionário desenvolve seu trabalho muito mais rapidamente que outra pessoa não treinada. Assim, é possível perceber, com um simples olhar, situações complexas.

A organização dos objetos facilita para que os estímulos se encaixem na expectativa a ser percebida, sem necessidade de Atenção cuidadosa a cada uma das partes isoladamente. Isso, naturalmente, permite maior eficiência, embora também possa provocar erros que passam desapercebidos, quando estes eventualmente se encaixem bem na organização.

Tenacidade e Vigilância
Já vimos, no capítulo da sensopercepção, que o ato de perceber consiste na apreensão de uma totalidade e que essa totalidade não representa uma simples soma do elementos isolados captados pelos órgãos sensoriais. O todo sensorial caracteriza uma determinada forma, e esta forma percebida pelos sentidos será qualitativamente diferente daquilo que representa suas partes isoladas.

Tenacidade

Na tenacidade os recursos mentais são reunidos e focalizados em objetivo preciso. Na vigilância parece não haver uma reunião dos recursos mentais e, além disso, há uma pulverização do foco. 

Bleuler destaca duas qualidades na Atenção: a tenacidade e a vigilância. A tenacidade é a propriedade de manter a Atenção orientada de modo permanente em determinado sentido, focando um ponto definido e preciso. A vigilância é a possibilidade de desviar a Atenção para um vários objetos, especialmente para estímulos do meio exterior. Essas duas qualidades da Atenção se comportam, geralmente, de maneira antagônica, ou seja, quanto mais tenacidade sobre um determinado objeto, menos vigilância, e vice-versa.

Para a Atenção, também, somente uma parte das excitações sensoriais adquire relevo, dando origem à uma forma sobre a qual se polariza a Atenção, enquanto as partes restantes representam o fundo, menos claro, mais difuso e mais fluido. Aqui, tanto quanto na sensopercepção, não existem quaisquer elementos isolados, mas apenas fins totais e integrado para alguma realização pessoal, e serão “claras” e “nítidas” as percepções contidas no foco da Atenção, “vagas” e “difusas” aquelas que se encontram além desse foco.

O nível da Atenção depende de vários fatores. Como vimos acima, o principal desses fatores é a ânimo ou o interesse, em outras palavras, o afeto. Quando nos encontramos diante de uma variedade de objetos, a Atenção está dispersa e os diferentes objetos recebem pequenas quantidades de energia e alcançam um grau médio de Atenção. Mas, ao concentrarmos a Atenção num único objeto, toda a energia se orienta neste sentido e os demais objetos ficam numa zona obscura. No entanto, no objeto em que se concentrou a Atenção se descobre uma infinidade de pormenores que haviam passado desapercebidos quando este se achava imerso nos demais. Neste caso a Atenção foi polarizada no objeto escolhido.

Isso significa que dentro do campo da Atenção nem todos os estímulos recebem a mesma conscientização e energia. Vale aqui o alvo inicialmente exemplificado: em torno de uma zona central especialmente iluminada e energicamente acentuada, situam-se zonas de fraca intensidade.

Quando estamos dirigindo o foco principal da Atenção deve estar na estrada e no trânsito à nossa volta. Em nível menos profundo de Atenção estão os acostamentos da estrada, o ruído do motor, os instrumentos do painel do veículo, etc. De um modo geral, o campo de visão mais externo, a visão periférica, utiliza a energia psíquica sem propósito de foco da Atenção, mas apenas como possibilidade para um eventual foco futuro.

Usando ainda o exemplo de dirigir, há também a Atenção de espera, quando então procuramos, espreitamos, espiamos ou exploramos, sem nenhum objeto específico à se focar a Atenção. Digamos que é uma Atenção para as possibilidades. Nesses casos, o objeto da Atenção ainda não se acha presente, tudo é indeterminado, não se conhece o onde, nem o quando do que vai ser percebido. Pode ser que um cachorro atravesse em nossa frente.

Esta expectância e incerteza exige que a Atenção percorra continuamente um campo mais amplo para, no caso do objeto aparecer, não o deixar escapar e colocá-lo imediatamente em foco. Para completar esse exemplo temos que entender o que é tenacidade e o que é vigilância.

O Ato de Concentrar a Atenção
Alonso Fernandez
considera dois aspectos no ato de concentrar a Atenção: primeiro, escolher um tema no campo da consciência, elevando-o à um primeiro plano e; segundo, manter esse tema rigorosamente destacado, sem deixar-se desviar por influências excêntricas do campo da consciência, modificando-o com plena liberdade. Assim sendo, o individuo lúcido deve dispor de liberdade diante das vivências, tornando possível o funcionamento normal da capacidade de concentração .

A primeira fase da Atenção representa a redução do campo da consciência. A percepção, representação ou conceito que se acham eventualmente no centro da consciência são percebidos, graças à concentração da Atenção, com maior clareza, nitidez e delimitação. Esse processo de concentração pode ser ativo ou passivo, dependendo da situação afetiva do momento.

Quanto à intencionalidade da Atenção distinguem-se duas formas: a Atenção espontânea e a Atenção voluntária. A Atenção espontânea, como o próprio nome diz, resulta da tendência natural da atividade psíquica em orientar-se espontaneamente para as solicitações sensoriais e sensitivas necessárias à adaptação com a realidade, sem que para tal haja necessidade imperiosa da consciência. Atenção ao andar, ao mastigar antes de engolir, desviar de obstáculos para não cair, Atenção ao manusear objetos, por exemplo.

A Atenção voluntária é aquela que já exige um certo esforço mental para algum determinado fim. Esta atividade psíquica permite que as representações e os conceitos objetos da Atenção permaneçam maior ou menor tempo no campo da consciência. Prestar Atenção à aula, por exemplo. A afetividade, visto em tópico anterior, participa inegavelmente na direção da Atenção voluntária.

Determinates da Atenção
Conforme vimos acima, entendendo a Atenção como voluntária ou involuntária, a primeira será quando a pessoa tem liberdade na determinação do foco de sua Atenção, liberdade em escolher intencionalmente aquilo sobre que prestar Atenção. A Atenção involuntária ou espontânea refere-se a casos em que a pessoa parece menos o agente de escolha da direção de sua Atenção do que um joguete nas mãos de forças (afetivas) que a obrigam a atentar para isso ou aquilo. Em uma narração folclórica e acaboclada de um contador de casos goiano, diante da censura de sua mulher por ter olhado demais para outra mulher, ele diz: “- eu não queria olhar, mas os olhos queriam…”.

Alguns determinantes da Atenção involuntária estão relacionados ao afeto e sentimento dirigidos para o objeto, como é o caso da pessoa faminta dirigir sua Atenção, irresistivelmente, para o alimento da vitrina do restaurante.

Outros determinantes se ligam a características duradouras dos objetos estimulantes. Essas características determinantes podem ser tão solicitantes que acabam atraindo tiranicamente a Atenção, apesar parecer que a pessoa atentou voluntariamente. As características dos estímulos, que exigem Atenção, foram muito estudadas por experimentos de laboratório e por técnicas de propaganda. Esses fatores determinantes do estímulo podem ser sumariados da seguinte maneira:

DETERMINANTE DO ESTÍMULO PARA A ATENÇÃO
Intensidade O silvo da sirene do carro de bombeiros
Repetição Anúncios na televisão
Isolamento Uma única palavra, na página da revista
Movimento/Mudança O pisca-pisca no cruzamento da estrada
Novidade O desenho do último modelo de carro
Incongruência Uma mulher fumando um charuto

Distração
Sob o rótulo de distração existem dois estados diferentes; por excesso ou por falta de tenacidade. Primeiro, diz respeito à dificuldade da Atenção em fixar-se, portanto, falta de tenacidade. A dificuldade de tenacidade não implica em prejuízo da vigilância, muito pelo contrário. Nos transtornos hipercinéticos das crianças observamos, quase sempre, uma hiper-vigilância acompanhada de hipo-tenacidade. Ela desvia sua Atenção diante de qualquer estímulo ambiental.

No segundo caso trata-se do contrário, ou seja, de uma concentração ou tenacidade muito intensa em determinado estímulo, assunto ou representação, que acaba por impedir a apreensão de tudo que não se refere ao motivo principal da Atenção, ou seja, por quase abolição da vigilância. É a distração do preocupado, do sábio ou do estudioso, interessados vivamente e exclusivamente por algum pensamento.

Na distraibilidade do primeiro caso, por falta de tenacidade, ocorre a diminuição daAtenção voluntária e a aumento da Atenção espontânea. No segundo caso, ao contrário, por excesso de tenacidade, como por exemplo na ioga, há aumento da Atenção voluntária e diminuição da Atenção espontânea. Afetivamente podemos dizer que nos estados de euforia a distraibilidade é do primeiro tipo e nos casos depressivos é do segundo, porém, em ambos extremos do humor haverá certamente prejuízo da Atenção. Compreendido essas duas maneiras de distraibilidade vamos aos nomes técnicos:

  1. – Hiperprosexia
    Apesar do prefixo “hiper”, há aqui prejuízo da Atenção. O “hiper” refere-se ao aumento quantitativo da Atenção. Como, em termos de Atenção, a quantidade pode ser tida como contrária à qualidade, esse tipo de alteração da Atenção se caracteriza por uma extrema labilidade da Atenção (voluntária ou tenaz), o que leva o indivíduo a se interessar, simultaneamente, às mais variadas solicitações sensoriais, sem se fixar sobre nenhum objeto determinado. Refere-se, pois, a uma hiperatividade da Atenção espontânea com prejuízo da voluntária.

Esta super-vigilância acompanhada de sub-tenacidade da Atenção é observada em estados patológicos acompanhados de excitação psicomotora, como é o caso do Episódio de Mania (euforia), no Transtorno Hipercinético da Infância, nas intoxicações exógenas por estimulantes como a cocaína ou anfetaminas, na embriaguez, na esquizofrenia ou mesmo em pessoas normais passando por momentos de grande excitação.

  1. – Hipoprosexia
    Consiste no enfraquecimento acentuado da Atenção em todos os seus aspectos, isto é, tanto da Atenção voluntária, quanto da Atenção espontânea (tenacidade e vigilância, respectivamente). É observada nos estados onde haja obnubilação da consciência, seja por razões neurológicas ou psiquiátricas. Também na embriaguez alcoólica aguda ou naembriaguez patológica, em casos de psicoses tóxicas, na amência, nos quadros dedemência, na paralisia geral prgressivada neuro-sífilis, na esquizofrenia e em certasreações vivenciais anormais.

Os estados depressivos sempre se acompanham de diminuição da capacidade de concentrar a Atenção, particularmente nos quadros de depressão ansiosa, que podem chegar a uma diminuição acentuada da capacidade de concentrar a Atenção.

Em enfermos esquizofrênicos inibidos, a Atenção pode estar polarizada para o mundo interno (introspecção), dando ao examinador a impressão de desinteresse completo ao mundo exterior. Quando isso acontece falamos em postura autista. Nos deficientes mentais também se observa déficit da capacidade de Atenção, tanto mais acentuado quanto maior for o grau de deficiência mental, chegando, em alguns casos, à ausência completa de Atenção.

  1. – Aprosexia
    Aprosexia é a falta absoluta de Atenção, dependendo esse tipo de transtorno de acentuada deficiência intelectual ou de inibição cortical. Esse estado difere da insuficiente capacidade de concentração de origem afetiva e das manifestações autistas dos esquizofrênico. Observa-se a aprosexia na amência, no estupor e nos estados de demências.

Alteração na evocação da Memória
1. – Hiperminésia

Ocorre Hipermnésia quando lembranças casuais são evocadas com mais vivacidade e exatidão que normalmente, ou quando se recordam particularidades que comumente não surgem na consciência. A Hipermnésia pode ser observada em alguns estados orgânicos, como é o caso das afecções febris toxi-infecciosas. Nesses casos podem aparecer lembranças da juventude ou da infância ou de fatos que a pessoa nem sequer tinha mais consciência de sua existência. Também pode haver Hipermnésia por estimulação hipnótica, onde recordações de particularidades muito complicadas são revividas com exatidão.

Na Hipermnesia não existe um verdadeiro aumento da memória. O que se observa é, na realidade, uma maior facilidade na evocação dos elementos mnêmicos, normalmente limitados a períodos específicos ou a eventualidades específicas ou, ainda, a experiências revestidas de forte carga afetiva.

Um fenômeno curioso é a Hipermnésia que pode ocorrer em estados que precedem a morte ou quando a pessoa se defronta com situações extremamente ameaçadoras à sobrevivência. Na literatura psiquiátrica há algumas referências de casos onde a pessoa se recorda, em poucos instantes, de todos os acontecimentos da vida com absoluta clareza.

Algumas pessoas que foram salvas da morte iminente por afogamento descrevem que no momento da asfixia pareciam ver toda a sua vida passada, nos seus mais pequenos incidentes. Pareciam ver toda a vida anterior desenrolando-se em sucessão e com pormenores muito precisos, formando um panorama de toda existência . Também Jaspersdescreve essas situações limites. Perante o infortúnio, o sofrimento e a morte iminente, diz ele, a existência humana é lançada numa situação anímica extrema.

  1. – Hipomnésia e Amnésia
    A Hipomnésia e a Amnésia podem ser consideradas como graus de hipofunção da memória, ou seja, são diminuições do número de lembranças evocáveis. A Amnésia, por sua vez, seria a desaparição completa das representações mnêmicas correspondentes a um determinado tempo da vida do indivíduo. Bleuler prefere o termo debilidade da memória ao invés de hipomnesia. Ele diz ainda que a Amnésia não precisa ser completa, havendo várias gradações entre o nada absoluto e a lembrança incompleta.

Segundo Jaspers, “amnésias são perturbações da memória que se estendem a um período de tempo delimitado, do qual nada ou quase nada pode ser evocado (Amnésia parcial), ou ainda a acontecimentos menos nitidamente delimitados no tempo“. Em seguida, estuda 4 variedades de Amnésia :

  1. Primeiro – Há profunda obnubilação da consciência mais do que perturbação da memória. Como nada se pode aprender na obnubilação, nada se pode fixar, ou seja, como nenhum acontecimento atinge a consciência, não será possível alguma reprodução.
    2. Segundo – Aqui verifica-se ser possível a compreensão durante algum período de tempo, porém a capacidade de fixação está profundamente diminuída, não sendo possível reter nada. Isso é comum em psicoses orgânicas, notadamente na Korsakov.
    3. Terceiro – É quando certos acontecimentos podem ser compreendidos passageiramente, porém as disposições da memória foram destruídas por um processo orgânico bem delimitado no tempo. É, por exemplo, o que acontece nas amnesias retrógradas, após graves lesões cerebrais, em que desaparecem totalmente as experiências das últimas horas ou dias antes do acidente.
    4. Quarto – Trata-se de amnésias extremamente acentuadas, normalmente de origem psicogênica, sendo o principal defeito uma alteração da capacidade de reprodução, apesar da soma das lembranças existentes estar conservada. Nesses casos, muitas vezes a solução é conseguida por meio de hipnose.

Existem, aliás mais comumente, Amnésias Parciais, onde se verifica o desaparecimento de algumas lembranças e não de todas elas. Seriam as chamadas Amnésias Sistematizadas. Embora possam ser de causa orgânica, como por exemplo, após traumatismo cerebral ou envenenamento, a maioria é de natureza psicogênica. Quando o esquecimento se limita a certos acontecimentos da vida do indivíduo, mas este continua sendo capaz de lembrar outros fatos vividos na mesma época, Bleuler chama de Amnésia catatímica.

Tipos de Amnésia
1. – Amnésia Anterógrada

Amnésia Anterógrada
se refere ao esquecimento dos fatos transcorridos depois da causa determinante do distúrbio e o transtorno mais freqüente desse tipo de alteração da memória é o de fixação. Costuma ser devido à uma concomitante perturbação da atenção, tanto da tenacidade quanto da vigilância.

Como a maioria dos casos se deve a alterações orgânicas, é como se houvesse uma diminuição da receptividade do sistema nervoso aos estímulos. A Amnésia Anterógradapode ser observada em lesões cerebrais agudas ou crônicas, sejam devidas a causas traumáticas, circulatórias ou tóxicas. Os doentes com Amnésia Anterógrada não podem relembrar os fatos recentes, porém, conservando a capacidade para recordar acontecimentos passados mais remotamente.

Nos estados demenciais os graves defeitos da fixação se acompanham freqüentemente de fabulações, ou seja, tentativas do paciente preencher as lacunas mnêmicas com afirmativas completamente aleatórias.

  1. – Amnésia Retrógrada
    Amnésia Retrógrada é quando ocorre perda da memória para os fatos ocorridos antes do evento que a causou. Aqui também o dano cerebral, de qualquer natureza, tem destaque principal entre as causas. Esse tipo de Amnésia se estende por dias ou semanas anteriores à lesão. Em alguns raros casos, a Amnésia Retrógrada pode compreender todos os acontecimentos anteriores da vida do enfermo.

A Amnésia Retrógrada é bastante observada nos quadros neuro-psicológicos senis, após um ictus circulatório cerebral e nos traumatismos cranianos, principalmente quando há perda de consciência. Apesar da sintomatologia exuberante, a Amnésia Retrógrada pode ser reversível, ocorrendo a regressão a partir dos fatos mais antigos para os mais recentes.

Além de neurológica a Amnésia Retrógrada pode ser psicogênica, em consequência de traumas emocionais intensos. Nesses casos a Amnésia pode referir-se apenas a determinado período de tempo, limitada a lembranças relacionadas com acontecimentos angustiantes. Nesses casos, na realidade, não há um verdadeiro apagamento mnêmico e a dificuldade da evocação resulta de um mecanismo de defesa (negação).

  1. – Amnésia Retroanterógrada
    Amnésia Retroanterógrada se refere ao esquecimento dos fatos ocorridos antes e depois da causa determinante. Trata-se de uma alteração simultânea da fixação e da evocação. Encontra-se nos casos graves de demências orgânicas e de traumatismos crânio-encefálicos. O antigo termo psicorrexe, pouco em uso atualmente, se refere à amnésia de instalação súbita e total, privando o indivíduo da capacidade de compreensão e de orientação no tempo e no espaço.
  2. – Amnésia Transitória
    Amnésia Transitória é, como o nome diz, uma síndrome amnésica transitória que se caracteriza pela incapacidade de fixar os acontecimentos recentes. É observada com relativa frequência na convalescença de enfermidades toxi-infecciosas graves onde, apesar dos pacientes conservarem boa capacidade de evocação, manifestam sérios transtornos da orientação têmpora-espacial, fabulações e perseveração.

Nestes casos de estados toxi-infecciosos graves verificamos um empobrecimento mental global e simplificação do pensamento, amortecimento da vida emocional, indiferença, apatia, falta de iniciativa e apragmatismo. Em alguns casos, podem surgir síndromes de transição confusional e do tipo paranoide-alucinatória.

Outras alterações da Memória

Paramnésias
Os distúrbios da qualidade da memória de evocação denominam-se, de modo geral, paramnesias. Estudam-se neste grupo as seguintes alterações:

1) ilusões mnêmicas;
2) alucinações mnêmicas;
3) fabulações;
4) fenômeno do já visto;
5) criptomnesia;
6) ecmnesia.

  1. – Ilusões Mnêmicas
    Tratam-se, as Ilusões Mnêmicas, de verdadeiras lembranças fictícias, ou seja, a recordação vívida de alguma coisa irreal. Nesses casos haveria um acréscimo de elementos falsos na consciência, os quais resultariam em lembranças fantásticas como, por exemplo, ter existido antes do universo, ter vivido 10 mil anos, ser mãe de dezenas de filhos, ter participado da queda da Bastilha ou da Guerra de Tróia e assim por diante. São algo diferente dos delírios devido ao fato da pessoa poder descrever minuciosamente as cenas vividas, algo como um acontecimento oniróide.

As Ilusões Mnêmicas são a forma mais frequente de paramnesia e desempenham importante papel na psicopatologia, principalmente na sintomatologia psicótica. Segundo Bleuler, as Ilusões Mnêmicas constituiriam o principal material para elaboração dos delírios. Bleuler inclui nas Ilusões Mnêmicas as lembranças imprecisas também observadas no alcoolismo agudo e crônico, nos orgânicos e nos epilépticos.

Entre as Ilusões Mnêmicas se incluem os falsos reconhecimentos, observados em psicóticos quando, muitas vezes, insistem em identificar o médico ou a enfermeira como uma pessoa de sua família, a quem até atribuem algum nome de sua familiaridade. Nesses casos não se trata de alteração da percepção e sim de formação da Ilusões Mnêmicas, que leva o paciente a identificar uma pessoa desconhecida com a lembrança de alguém familiar.

  1. – Alucinações Mnêmicas
    Alucinações Mnêmicas são criações imaginativas com aparência de reminiscências e lembranças, porém, não correspondem a nenhuma imagem de épocas passadas. Nos psicóticos surgem, freqüentemente, lembranças reais de vivências irreais que podem atribuir uma história de vida completamente diferente. São lembranças que não correspondem a nenhum acontecimento vivido.

Pacientes pré-demenciais ou demenciais podem apresentar essas Alucinações  Mnêmicas como cenas acontecidas recentemente. Uma nossa paciente em início de demenciação insistia que um antigo namorado vinha quase todas as noites visitá-la de carruagem. Descrevia a cena com detalhes minuciosos.

Não se trata de realização de sonhos nem tampouco de alucinação dos sentidos, pois muitos dos acontecimentos são situados no tempo em que o indivíduo normalmente se ocupava do seu cotidiano. Em outros casos, as alucinações da memória são menos sistematizadas e constam apenas de particularidades isoladas.

  1. – Fabulações
    A Fabulação consiste no relato de temas fantásticos que, na realidade, nunca aconteceram. Em grande parte, resultam de uma alteração da fixação e de uma incapacidade para reconhecer como falsas as imagens produzidas pela fantasia. O conteúdo das fabulações, como bem salientou Lange, procede do curso habitual da vida anterior, acontecendo muitas vezes que, achando-se perturbada a capacidade de localizá-las no tempo, lembranças isoladas autênticas completam erroneamente as lacunas da memória.

Nos casos em que existem alterações dos conceitos e desorganização da vida instintiva, pode-se observar a produção rica de conteúdos fabulatórios absurdos e inverosíméis, que, habitualmente, adquirem um aspecto oniróide. Em outros casos, certas imagens oníricas são rememoradas e atualizadas como lembranças autênticas.

Enquanto as Fabulações preenchem um vazio da memória e se mostram como que criadas para este fim, podendo variar de tema e conteúdo, as Alucinações Mnêmicas não mudam, tal como uma idéia delirante. No sentido mais particular, a Fabulação é, nos estados em que não há delírio, um sintoma de comprometimento orgânico. Fonte

Vejamos agora como pode se apresentar a Atenção e a Memória em alguns estados psíquicos mais encontradiços.

Transtorno Afetivo Bipolar
Nos período de euforia do Transtorno Afetivo Bipolar, a Atenção se caracteriza por uma exagerada distraibilidade devido a hiper-vigilância e hipo-tenacidade, portanto, trata-se daquilo que vimos aqui chamar-se Hiperprosexia. Como a Atenção é muito superficial e dispersa, detendo-se nos estímulos ambientais, o paciente tem grande dificuldade para concentrar a Atenção em determinado objeto. Nas fases de leve excitação maníaca, ou nos estados hipomaníacos, os doentes percebem rapidamente tudo o que ocorre em torno de sua pessoa, inclusive o que carece de significação, entretanto, a Atenção só consegue manter-se em cada objeto durante um breve tempo, voltando-se novamente para novas impressões.

Por outro lado, nos estados de depressão há lentidão e dificuldade de concentrar a Atenção devido à hipo-vigilância e à hipo-tenacidade, ou seja Hipoprosexia. Em alguns pacientes, porém, pode haver aumento da tenacidade da Atenção sobre seus próprios pensamentos de teor negativo e depressivo. Nesses casos haveria super-tenacidade e sub-vigilância: dificilmente o enfermo desvia a Atenção da idéia ou do objeto a que se refere o seu estado mental.

Quanto à Memória nos estados maníacos, sua evocação está, via de regra, exaltada. Diante da menor solicitação da consciência o eufórico tende a reviver uma sucessão ininterrupta de ideias e de imagens mnêmicas. Entretanto, as ligações entre as ideias é fraca e fragmentada.

As combinações dos conceitos e dos juízos se fazem de maneira acidental na euforia e, na maioria das vezes, estabelecem-se relações secundárias e aleatórias, de acordo com assonâncias, rimas e jogo de palavras. As ideias se sucedem sem direção, ao acaso das circunstâncias psicológicas. A Memória das lembranças afluem à consciência em sucessão torrencial e pode remontar à tempos muito pregressos.

O pensamento do eufórico é extremamente dinâmico, instável, salta sem transição de uma idéia a outra (fuga de ideias), as evocações se fazem ao acaso. Os atos intencionais estão todos nivelados para cima, têm igual interesse de ânimo e se atualizam com o mesmo grau de consciência. Mundo exterior, impressões sensoriais, imagens verbais, motoras, tudo se encontra sob o mesmo plano, tudo é vivido com igual intensidade.

Afetivamente as tendências anteriormente reprimidas dos pacientes em crises de euforia tendem a liberação, favorecendo a emotividade e a expansividade exagerada. Os estados afetivos comandam o encadeamento veloz das representações mnêmicas e estas provocam juízos que se expressam eloquentemente. A Memória exaltada proporciona frequentes retornos de lembranças agradáveis, suscita pensamentos otimistas, projetos de vida sem uma ordenação adequada. À medida que a excitação maníaca aumenta de intensidade, a hiper evocação automática da Memória cresce de modo progressivo.

Com o evoluir do quadro, apesar da pseudo-hiperprodução mental do eufórico, a evocação eloquente e automática da Memória, por mais rica e fiel que seja, não serve mais para nada, pois o doente não mais a controla, não escolhe nada de prioritário entre as evocações tumultuosas e as representações incoerentes não podem mais dirigir a atividade no sentido de uma via razoável, prática e objetiva.

Em muitos casos de excitação maníaca observa-se hipermnesia, caracterizada pela revivescência acentuada de lembranças, que fluem à consciência do enfermo em verdadeira avalanche mas, ao contrário de um enriquecimento da Memória, como poderia parecer, há sim um verdadeiro tumulto e uma real desordem da Memória.

Alguns poucos casos o paciente maníaco está incapacitado para relembrar os fatos vividos durante a agitação e, dessa forma, passa a apresentar uma amnésia total ou parcial relativa à fase de agitação maníaca.

Estados depressivos
Nos estados depressivos, as funções psíquicas também estão perturbadas em seu conjunto, tal como dissemos sobre o sintoma da Inibição Global dos deprimidos. Os sintomas mais destacados são a tristeza vital, a angústia e a inibição da psicomotilidade. Entretanto, ao lado desses sintomas axiais, os enfermos deprimidos se queixam de um sentimento de impotência psíquica que os impede de realizar as suas tarefas habituais, diminuição da capacidade de concentração e enfraquecimento da vontade. A Memória se acha comprometida em suas capacidades de fixação e de evocação. Na maioria dos casos, os doentes revelam redução da atividade voluntária global, além da mnêmica.

Estando a Atenção voluntária (tenacidade) e involuntária (vigilância) severamente prejudicadas nos quadros depressivos, automaticamente também estará prejudicada a Memória de Fixação e de Evocação, a primeira pela alterações da Atenção e a Segunda por desinteresse.

Esquizofrenia
A alteração da Atenção que se observa na Esquizofrenia é, predominantemente, da Atenção voluntária, ou seja, da tenacidade. O esquizofrênico tem dificuldade para ater-se à temas necessários à vida pragmática, profissional ou social, embora possa estar desperdiçando a energia psíquica necessária à Atenção, concentrando-se em temas interiores e pertinentes à sua própria patologia delirante.

No caso da Esquizofrenia, a alteração da Atenção seria uma consequência da alteração da afetividade (embotamento ou empobrecimento) em primeiro lugar, a qual determinaria, em segundo lugar, alteração vontade, sendo esta última imprescindível para a manutenção da Atenção. Na Esquizofrenia Paranoide os pacientes podem ter a Atenção fortemente concentrada em suas alucinações, ou se sentem forçados a polarizar a Atenção para determinados acontecimentos do ambiente. Nestes casos, segundo Bleuler, seria uma espécie de vigilância sistematizada, isto é, uma tendência patológica de relacionar os estímulos do meio externo às concepções delirantes.

Nas esquizofrenias Hebefrênica e Catatônica há grande dificuldade de Atenção, com notável diminuição da Atenção involuntária por indiferença aos acontecimentos externos, sendo muito difícil mobilizar a Atenção voluntária do doente. Nessas psicoses, algumas vezes, pode-se observar uma verdadeira interceptação da Atenção.

Quantitativamente a Memória, por sua vez, não está perturbada na esquizofrenia. Entretanto, a fixação e a capacidade de evocação podem se achar alteradas em função do prejuízo da Atenção e da falta de interesse. Em alguns casos observam-se, como dissemos, alterações qualitativas da Memória, como são os casos de Ilusões e Alucinações Mnêmicas.

Epilepsia
Na epilepsia, a Atenção sofre a influência da perseveração revelando aumento da tenacidade. Entretanto, de modo geral, este aumento da tenacidade secundário à perseveração do epiléptico resulta em prejuízo da extensão dessa tenacidade, isso em virtude de um interesse circular, repetitivo e pouco prático. Por outro lado, a tenacidade voluntariamente invocada para outros temas pode estar severamente prejudicada, principalmente quando o enfermo concentra a Atenção num tema que se lhe apresenta obsessivamente muito importante. Quando se promove a variação rápida de temas, nota-se que a Atenção se fatiga facilmente.

Os epilépticos também estão sujeitos à alguns transtornos da Memória que merecem atenção especial. A Memória dos epilépticos pode ser insegura, principalmente em relação à evocação e na localização das lembranças. Na medida em que a enfermidade progride no tempo, a fixação vai-se tornando cada vez mais difícil. Com muita frequência, alguns enfermos apresentam esquecimentos de nomes, de datas, de acontecimentos da vida cotidiana (fixação), enquanto conservam de modo perfeito os conhecimentos adquiridos anteriormente (evocação).

Parece que tais alterações mnêmicas dos epilépticos não têm uma relação direta com a frequência das eventuais convulsões, visto serem observadas também em pacientes cujas crises são controladas pelo tratamento. Alguns autores consideram que estes fenômenos dependentes de elementos subclínicos e demonstráveis no EEG através de um traçado elétrico típico, mesmo o paciente não manifestando alteração clinica.

Nas epilepsias francamente convulsivas, com a evolução da doença aumenta gradativamente a alteração da Memória, revelada pela perda dos conhecimentos adquiridos, pelo estreitamento do círculo de interesses e o empobrecimento dos meios de expressão .

Estado Psicorgânicos e Senis
Nos estados demenciais há, inegavelmente, um enfraquecimento global e progressivo de todas as funções intelectuais, incluindo, é lógico, a Atenção e a Memória. Na Atenção o prejuízo da tenacidade resulta em decréscimo progressivo da concentração, e a diminuição da vigilância caracteriza uma consequente diminuição da extensão e fatigabilidade rápida da Atenção.

Segundo Bleuler, nos quadros orgânicos senis a Atenção espontânea (vigilância) é alterada antes e mais intensamente do que a Atenção voluntária (tenacidade). Por esse motivo, esses pacientes, apesar de darem a impressão de que estão com a Atenção bem conservada, em termos de tenacidade, costumam atrapalhar-se no pragmatismo cotidiano, onde a vigilância é de suma importância. Esse estado, que frequentemente acomete idosos, não pode ser atribuído à alteração exclusiva da Memória (que pode estar até bem) mas sim da Atenção.

Nos quadros francamente orgânicos, como aqueles secundários ao envelhecimento cerebral, aos problemas circulatórios e aos traumatismos cranianos, ao contrário dos quadros senis simples onde há alteração da Atenção, verifica-se alterações da fixação e da evocação da Memória. O distúrbio da fixação é observado desde o início, evoluindo progressivamente até alcançar uma completa incapacidade para fixar os acontecimentos novos. Em certos casos, os fatos recentes são recordados, mas rapidamente são esquecidos.

Especialmente na Demência Senil, a evocação se mostra deficiente e os pacientes revelam uma tendência progressiva a utilizarem cada vez menos os seus conhecimentos. Observa-se, nesses casos, a perda da capacidade de evocação, mais acentuada nos acontecimentos mais recentes e menos grave para os acontecimentos mais antigos. É comum os demenciados rememorarem com detalhes histórias muito antigas e não conseguirem evocarem o que comeram no almoço.

Deficiência Mental
Em geral a Deficiência Mental se torna manifesta e mais prontamente diagnosticada através do atraso geral na aprendizagem. Na Deficiência Mental há comprometimento global da capacidade intelectual e, sobretudo, dificuldade de concentração (tenacidade) da Atenção. Em todos os graus de deficiência mental a Atenção é lenta e fatigável e, por causa disso, as características especiais da Deficiência Mental serão sempre de natureza deficitária, evidenciando-se, notadamente, as alterações da fixação e da evocação da Memória.
Sendo a alteração primária a da Atenção, em muitos casos, os deficientes mentais mostram uma excelente capacidade para a reprodução mecânica da Memória em certas especializações, como por exemplo, acerca de conhecimentos musicais, matemáticos ou visuais.

Nas Alterações do Estado de Consciência…
Nos estados confusionais, observa-se uma crescente dificuldade na percepção do mundo objetivo, com diminuição da atividade intelectual, diminuição essa que se acentua de maneira progressiva até atingir todas as formas de atividade psíquica. Uma espécie de véu espesso cai sobre a consciência: eis aqui os traços essenciais da obnubilação da consciência nas psicoses sintomáticas. Dentro desse quadro sintomatológico, as perturbações da Atenção ocupam o primeiro plano. 
O interrogatório clínico não progride, em virtude da incapacidade revelada pelo enfermo para concentrar a tenção e responder às perguntas de modo acentuado. É necessário repetir as palavras, pressionar, praticar uma verdadeira estimulação para conseguir que o olhar perdido ou apagado se volte para o interlocutor. Esta diminuição da Atenção e da capacidade de concentração é característica; é o elemento essencial e não representa o resultado de distração, nem a consequência de concentração intelectual ou de polarização afetiva sobre uma idéia ou um sentimento prevalente. Ela se manifesta também por extenuação rápida das reações; quando o enfermo, em resultado de um grande esforço, consegue concentrar a Atenção, ela não se mantém por muito tempo vinculada ao objeto.

Na obnubilação da consciência, a Atenção do enfermo é vaga e capta o ambiente de maneira incompleta e inexata. Na opinião de Walther-Büel, o transtorno da Atenção representa o sintoma obrigatório na obnubilação da consciência. “O indivíduo obnubilado, por não dispor de capacidade de concentração suficiente, encontra-se à mercê de suas vivências, sem poder participar na configuração das mesmas”.

Transtornos Neuróticos
Habitualmente há fatigabilidade e distraibilidade da Atenção nas neuroses. Os enfermos se queixam de que não podem concentrar a Atenção, porque logo se sentem fatigados. Embora a capacidade intelectual esteja conservada nos pacientes com Transtornos Neuróticos, há quase sempre uma alteração da Atenção, a qual acaba por se refletir, secundariamente, na Memória de fixação.

Os pacientes com Transtornos Neuróticos, sejam eles do tipo Fóbico-Ansioso, Obsessivo-Compulsivo, Distímicos ou mesmo Histriônicos costumam se queixar de uma certa fraqueza da Memória. A mesma queixa que encontramos nos pacientes leigamente considerados com “Esgotamento”. O que significa, nesses casos, é uma certa dificuldade de fixar os acontecimentos, particularmente a fixação de assuntos lidos ou de temas de estudo.

Observa-se que existe uma oscilação no rendimento da Atenção tenaz e, consequentemente da Memória de fixação, muito provavelmente ligada à fadiga e ao desinteresse.

Entre os portadores de Transtornos Neuróticos, são os histéricos que mais costumam apresentar Amnésias Psicogênicas, as quais, como vimos, obedecem a determinados mecanismos de defesa do ego. Em alguns pacientes, entretanto, o que poderia ser tomado por um mecanismo de Negação há, na realidade uma Repressão (outro mecanismo de defesa) por pudor, angústia ou timidez. Nesses casos, não se trata de uma verdadeira Amnésia Psicogênica.

 Alterações do Pensamento…

O raciocínio é uma cadeia de representações, conceitos e juízos, com início na experiência sensorial.

Trata-se, o pensamento, de uma operação mental que nos permite aproveitar os conhecimentos adquiridos na da vida social e cultural, combiná-los logicamente e alcançar uma outra nova forma de conhecimento. Todo esse processo começa com a sensação e termina com o raciocínio dialético, onde uma idéia se associa a outra e, desta união de ideias nasce um a terceira.

Quando percebemos uma rosa branca concebemos, ao mesmo tempo, as noções de rosa e brancura, daí, conceberemos uma terceira idéia que combina as duas primeiras. Evidentemente, para concebermos as duas primeiras ideias há a necessidade de que, anteriormente, tenhamos de experimentar a rosa e também o branco para, numa próxima operação concebermos a rosa branca.

Não há, desta forma, necessidade de termos experimentado uma rosa já branca, assim como, por exemplo, somos capazes de conceber uma rosa completamente verde, sem que, sequer, a tenhamos visto.

O raciocínio humano é uma cadeia infinita de representações, conceitos e juízos, sendo a fonte inicial de todo esse processo a experiência sensorial. Nosso conhecimento se dá através das representações senso perceptivas do mundo e delas, elaboramos nossos conceitos, vistos anteriormente. O pensamento lógico consiste em selecionar e orientar esses conceitos, tendo como objetivo alcançar uma integração significativa, que possibilite uma atitude racional ante as necessidades do momento.

Pensamento e Juízo
Chama-se juízo o processo que conduz ao estabelecimento dessas relações significativas entre conceitos e, julgar é, nesse caso, estabelecer uma relação entre conceitos. A função que relaciona os juízos, uns com os outros, recebe a denominação de raciocínio. Em seu sentido lógico, o raciocínio não é nem verdadeiro nem falso, ele será sim, correto ou incorreto. Portanto, o raciocínio para ser correto deve ser lógico e, em Psicologia, o termo raciocínio tem o mesmo sentido de pensamento.

Por outro lado, devemos completar a idéia de que o pensamento não se resume em associações esparsas e aleatórias, como se combinássemos peças para formação de um mosaico. Devemos acrescentar à teoria associativa um algo mais que confere ao pensamento uma característica formal, ou seja, uma capacidade em conseguir dar FORMA às ideias e que, estas, não são apenas a soma de suas partes, mas sim, uma configuração independente. Isso pode ser exemplificado pela observação de que uma melodia não se constitui apenas na somatória de suas notas: trata-se de uma coisa nova, com uma forma independente e original.

Ideias Supervalorizadas
Há situações onde ocorre uma predominância dos afetos sobre a reflexão consciente, com subsequente alteração do juízo da realidade e com repercussões secundárias no comportamento social do indivíduo. As Ideias Supervalorizadas são conhecidas também como Ideias Prevalentes ou Ideias Superestimadas. É quando o pensamento se centraliza obsessivamente num tópico especialmente definido e carregado de uma enorme carga afetiva.

A imagem literária através da qual se estigmatiza o possuidor das Ideias Supervalorizadas é a do indivíduo fanatizado, cuja convicção acerca de sua Ideia Superestimada desafia toda argumentação em sentido contrário, inclusive a contra-argumentação embasada em elementos lógicos e razoáveis.

Tendo em vista a grande força sentimental propulsora da convicção prevalente, tal pensamento passa a ser dirigido exclusivamente pela emoção, comumente por uma emoção doentia e com total descaso para com a lógica ou para com a razão. A necessidade íntima convocada por este psiquismo problemático pode encontrar algum conforto na adoção de uma crença; seja ela política, religiosa, filosófica ou artística, de tal forma que o indivíduo se encontra cego para todas as evidências que não compactuem com sua idéia prevalente.

Tudo aquilo que possa comprometer ou ameaçar o valor e o significado atribuído à Idéia Supervalorizada é recusado pela consciência e, quanto mais a realidade dos fatos sugerir conclusões contrárias à tais pensamentos, mais claramente perceberemos a sua não-normalidade.

1. – FORMA DO PENSAMENTO
Havendo saúde mental os estímulos para que o raciocínio se desenvolva devem provir de fontes externas e internas. Mas o pensamento não é guiado apenas por considerações estritamente atreladas à realidade, ele também flui motivado por estímulos interiores, abstratos e afetivos ou até instintivos. A criação humana, por exemplo, ultrapassa muitas vezes a realidade dos fatos, refletindo estados interiores variados e de enorme valor para a construção de nosso patrimônio cultural.

Voltar-se para o mundo interno significa que o pensamento se manifesta sob a forma de Devaneios – uma espécie de servidão das ideias às nossas necessidades mais íntimas, aos nossos afetos e paixões. Enquanto há saúde mental, entretanto, nossos devaneios são sempre voluntários e reversíveis; eles devem ser nossos servos e não nossos senhores.

Em estados mais doentios, esses devaneios ou fugas da realidade são emancipados da vontade, são impostas ao indivíduo de forma absoluta e tirânica. Parece tratar-se de um indivíduo que despreza a realidade e vive uma realidade nova que lhe foi imposta involuntariamente, da qual não consegue libertar-se.

A própria concepção da realidade pode sofrer alterações nos transtornos psíquicos. Em determinados estados neuropsicológicos a realidade pode sofrer alterações de natureza bioquímica, funcional ou anatômica. Em outros estados, agora de natureza psicopatológica, os elementos da realidade também podem ser deturpados por fatores afetivos, emocionais ou psíquicos, de forma a prevalecer uma concepção do mundo determinada exclusivamente pelo interior de ser e não mais pela lógica comum à todos nós.

Ao pensamento que se afasta da realidade morbidamente, ou seja, doentiamente, damos o nome de Pensamento Derreísta ou Pensamento Autista. Falamos “se afasta morbidamente da realidade” porque esse tipo de pensamento não mais depende do arbítrio que todos temos em fantasiar e voltar à realidade voluntariamente. Ele devaneia obrigatoriamente, sendo negado ao paciente a faculdade de entendimento dos limites de nossas fantasias, quando nos imaginamos ganhadores da loteria ou coisas assim, e da realidade, com a consciência plena de nossa situação.

Visto assim, normal seria a dupla capacidade do pensamento, tanto para lidar com a fantasia, quanto para lidar com o concreto, de maneira livre e autônoma. O ser humano normal deve ter autonomia e capacidade de passar voluntariamente de uma forma à outra e, principalmente, deve saber claramente onde começa um tipo de pensamento e termina o outro.

Para aqueles que acreditam ser normal e até desejável que a pessoa tenha seus pensamentos exclusivamente atrelados ao concreto e ao real, lembramos que essa limitação imposta ao pensamento, fazendo-o incapaz de afastar-se do absolutamente concreto, leva o nome de Concretismo, que também é uma alteração da forma do pensamento.

Pensamento Derreísta
O Pensamento Derreista é aquele que se desvia da razão, faltando-lhe tenacidade para se atrelar à realidade. Sua característica principal e criar, a partir de antigas cognições e novas representações, um mundo novo e de acordo com os desejos, anseios e angústias.

Bleuler deixou explícito que nos casos de esquizofrenia o pensar se encontra profundamente alterado. O voltar-se para o mundo interno contribui para que o pensamento se manifeste sob a forma de devaneio, quando a pessoa pode deixar suas fantasias em total liberdade, de rédeas soltas. Em tais circunstâncias, o pensar não obedece às leis da lógica e, nos casos mais acentuados, tudo transcorre como se o indivíduo estivesse submerso num verdadeiro estado onírico. Para Bleuler, o Pensamento Derreísta obedece às suas próprias leis e utiliza as relações lógicas habituais apenas na medida em que são convenientes mas, de qualquer forma, ele não se acha ligado de nenhuma maneira a essas leis lógicas. O Pensamento Derreísta está dirigido pelas necessidades íntimas do paciente, o qual pensa mediante símbolos, analogias, conceitos fragmentários e vinculações acidentais.

Ao contrário do Pensamento Derreísta temos o Pensamento Realista. A clínica nos mostra claramente que essas duas formas de pensar podem coexistir justapostas num mesmo paciente. Ao lado das marcantes alterações derreísticas, realisticamente os pacientes podem se orientar perfeitamente bem no tempo e no espaço, podem ter suas ações perfeitamente adequadas e se adaptam à alguma parte de sua realidade pragmática, podendo nos parecer normais em muitas circunstâncias.

Pensamento Realista
O Pensamento Realista é aquele que consegue compatibilizar com naturalidade, ou seja, fisiologicamente, tanto a parte formal do raciocínio, quanto a parte mágica natural à todo ser humano, ou seja, tanto o raciocínio orientado pela lógica, quanto os devaneios espiritualizados e sublimes do ser humano. Essa harmonia entre a lógica e o mágico, desejável no ser humano normal, recomenda o ditado de que “não importa se a aventura é louca, desde que o aventureiro seja lúcido“.

No território do pensamento mágico abrigamos todas nossas crenças, nossas paixões, nossas superstições, enfim, nosso mundo da fantasia e da magia. No território do pensamento formal e lógico, habitam os conceitos, as suposições, as deduções, as induções, as ideias racionalizadas e, principalmente, a noção exata para valorizarmos adequadamente nosso próprio lado mágico. Veja ao lado o Concretismo, que é um exagero do Pensamento Realista.

2. – CURSO DO PENSAMENTO
Inibição do Pensamento
Pelo curso do pensamento podemos ver, inicialmente, seu ritmo. Quanto à isto, o pensamento pode manifestar-se normal, rápido ou lento. Em seu ritmo lento temos a Inibição do Pensamento. A inibição do pensamento é um sintoma que se manifesta por lentidão de todos os processos psíquicos. Nos enfermos em que existe inibição do pensamento, observa-se também grande dificuldade na percepção dos estímulos sensoriais, limitação do número de representações e lentidão no processo e evocação das lembranças.

Os pacientes com inibição do pensamento mantêm-se apáticos, não falam espontaneamente nem respondem às perguntas com vivacidade, respondem lentamente ou com dificuldade. A perturbação é também qualitativa ou seja, atinge a essência do pensamento e se acompanha, geralmente, de um sentimento subjetivo de incapacidade. Junto com inibição do pensamento pode haver ainda sentimento de pouco interesse, de imprecisão a respeito das opiniões, dificuldades para a escrita e lentidão para andar. Esses pacientes revelam dificuldade de compreensão, de iniciar uma conversação, de escolher palavras, enfim, eles pensam com grande esforço.

Fuga de Idéias
A Fuga de Idéias é uma alteração da expressão do pensamento caracterizada por uma variação incessante do tema e uma dificuldade importante para se chegar a uma conclusão . A progressão do pensamento encontra-se seriamente comprometida por uma aceleração associativa, a tal ponto que, a idéia em curso é sempre perturbada por uma nova idéia que se forma. Segundo Bleuler, na Fuga de Ideias os doentes geralmente são desviados da representação do objetivo através de quaisquer ideias secundárias. Assim, no pensamento com Fuga de Ideias, o que há não é uma carência de objetivos mas uma mudança constante do objetivo devido a extraordinária velocidade no fluxo das ideias.

A sucessão de novas ideias, sem que haja conclusão da primeira, torna o discurso pouco ou nada inteligível. Há, pois, passagem de um assunto para outro sem que o primeiro tenha chegado ao fim: “eu não gosto de batatas, mas acho que em São Paulo o clima é melhor. Porque o senhor não compra um carro novo?

Normalmente costumamos observar 4 características na Fuga de Idéias:
1. Desordem e falta aparente de finalidade das operações intelectuais: mesmo quando há certa relação entre os conceitos, o conjunto carece de sentido e de significado;
2. Predomínio de associações disparatados;
3. Distraibilidade. Facilidade de se desviar do curso do pensamento sob a influência dos estímulos exteriores;
4. Freqüente aceleração do ritmo da expressão verbal.

O paciente com fuga de ideias é incapaz de concentrar sua atenção, dispersando-se numa multiplicidade de estímulos sensoriais sem se aprofundar em nada. A Fuga de Ideias normalmente está associada a aceleração do psiquismo, ou Taquipsiquismo: um estado afetivo comumente encontrado na hipomania ou mania, ou seja, na euforia. Seria como se a eloquência na produção de ideias superasse a capacidade de verbalizá-las. Diz-se Logorréia ou Verborragia para o fenômeno de produção aumentada de palavras, o qual, pode ser ou não acompanhada de Fuga de Ideias.

Na prática psiquiátrica o observador pode ter a falsa impressão de que o paciente verborrágico (com ou sem Fuga de Ideias) tem uma crítica aumentada e arguta. Entretanto, ainda que seja capaz de observações perspicazes e ferinas, isso se deve à perda da inibição social que normalmente acompanha os estados maníacos e, de fato, o que se vê é mais uma atitude de inconveniência do que um juízo crítico apurado. O homem sadio não diz muitas coisas que poderiam ser ditas porque, em certas ocasiões e circunstâncias alguns comentários não são recomendados pela ética. Tais considerações não existem nos pacientes eufóricos.

Bloqueio ou Interceptação do Pensamento
Nesses casos há uma interrupção brusca da idéia em curso e o fluxo do pensamento fica bloqueado, cessando repentinamente. É como se, durante uma exposição discursiva, um raio caísse bem próximo da pessoa que fala e, pelo susto, interrompesse imediatamente a exposição. Depois do susto normalmente existe a pergunta: ” o que estava mesmo dizendo?” e, em seguida, pode retomar a idéia inicial. Isso é um bloqueio ou interceptação do pensamento.

Normalmente o bloqueio sugere uma espécie de força interior que supera a intenção de concluir o tema por alguns instantes; trata-se de uma motivação interna bloqueadora do curso do pensamento. Podemos encontrar bloqueios relacionados a fortes emoções mesmo na vida psíquica normal. Nos estados patológicos as forças interiores (complexos, delírios, paixões) produzem boas razões para os bloqueios. Nesses casos, havendo uma interrupção da idéia em curso haverá, consequentemente, uma interrupção do discurso.

Na esquizofrenia observa-se com frequência o aparecimento inesperado de interceptação das ideias. O doente começa a expor um assunto qualquer e, subitamente, se detém. As vezes, depois de alguns instantes, volta a completar o pensamento interrompido, outras vezes, inicia um ciclo de pensamento completamente diferente.

Perseveração
É a repetição continuada e anormalmente persistente na exposição de uma idéia. Existe uma aderência persistente de um determinado pensamento numa espécie de ruminação mental, como se faltasse ao paciente a formação de novas representações na consciência. Percebemos que há uma grande dificuldade em desenvolver um raciocínio, seja por simples falta de palavras, por escassez de ideias ou dificuldade de coordenação mental. Por definição a Perseveração do Pensamento é a repetição automática e frequente de representações, predominantemente verbais e motoras, que são evocadas como material supérfluo nos casos em que existe um déficit na evocação de novos elementos ideológicos.

A Perseveração está incluída nos distúrbios do curso do pensamento por sugerir que a temática em pauta se encontra limitada a um curso circular, que não tem fim e repete-se seguidamente. Havia um paciente epiléptico que dizia: “… então a minha mãe corria atrás da gente com uma faca, aí eu ia buscar a Genizinha que sabia benzer ela, então chegava e benzia e minha mãe corria atrás da gente com uma faca, aí eu ia buscar a Genizinha que sabia benzer ela, então chegava e benzia minha mãe que corria atrás da gente…”

Observamos Perseveração do Pensamento em alguns casos de agudização psicótica, nos quais há significativa desestruturação da consciência e um determinado estímulo interno passa a se assenhorear de toda personalidade naquele momento. Também observamos em determinados Estados Crepusculares, onde, patologicamente há um significativo estreitamento da consciência.

Circunstancialidade ou Prolixidade
Aqui, o paciente revela uma incapacidade irritante para selecionar as representações essenciais daquelas acessórias, ou seja, o pensamento foge da pauta principal e perde-se no detalhamento trivial. Aparece um grande rodeio em torno do tema central, uma riqueza aborrecedora de detalhes e circunstâncias sem propósitos práticos e pormenores desnecessários, tornando o discurso bem pouco agradável. À esta situação chamamos de Viscosidade ou discurso Viscoso ou, quando esta é uma das características constante da pessoa, pode-se chamá-la de pessoa Viscosa. Um exemplo contundente de viscosidade é a conversa ou a atitude de alguns bêbados, muito inconvenientes e dos quais não é fácil se livrar.

Na Circunstancialidade aparece, como é natural, um certo grau de ansiedade por parte do interlocutor, provocada pela morosidade na conclusão da idéia. Um paciente, perguntado se tinha ido fazer uma tomografia, cuja resposta deveria ser algo como sim ou não, dizia:“… bem, tive que ir terça feira passada porque o movimento do escritório às terças é menor; na segunda feira é que tem mais serviço, porque o pessoal deixa tudo para ser resolvido às segundas. Até que foi bom eu ter deixado para a terça, porque, lá no serviço do tomógrafo, eles também devem ter mais movimento de segunda, que por sinal é um dia terrível. Acho que (brincando) a semana deveria começar pela terça”.

A Prolixidade produz um curso do pensamento muito tortuoso e o tema central fica seriamente prejudicado pelas divagações inúteis e pelos comentários paralelos. Em seu diálogo o paciente viscoso tem sempre algo a acrescentar e de tal forma que o fim da conversa fica desagradavelmente comprometido. No consultório ele é capaz de levantar-se muitas vezes antes de ir embora e sentar novamente para acrescentar mais alguma coisa, absolutamente sem importância.

Incoerência
Na Incoerência há uma grande desorganização na estrutura sintática com períodos em branco e frases soltas no meio da exposição de uma idéia. Frequentemente a Incoerência está associada a transtornos que comprometem o estado da consciência. É como se faltasse ao paciente condições homeostáticas para a organização das ideias e para sua capacidade de comunicação verbal. O Estado Crepuscular é um bom exemplo de Distúrbio da Consciência, onde a capacidade de organização do pensamento encontra-se seriamente comprometido. Também na Turvação da Consciência pode haver Incoerência.

O pensamento incoerente é confuso, contraditório e ilógico. Enquanto na Fuga de Ideias percebemos a passagem repentina de uma idéia para outra, na Incoerência o que interrompe o curso do pensamento são fragmentos soltos de ideias aleatórias; como se o pensamento estivesse pulverizado.

3. – CONTEÚDO DO PENSAMENTO
Além dos Distúrbios da Forma e dos Distúrbios do Curso do Pensamento, elementos valiosíssimos na propedêutica psíquica, devemos verificar também os Distúrbios do Conteúdo do Pensamento. Este conjunto sintomático completará esta grande área do psiquismo a ser pesquisada, o Pensamento. Para a elaboração do diagnóstico psiquiátrico será necessário, além do Pensamento, também a verificação de duas outras grandes áreas; a Afetividade e o Comportamento.

O exame do Conteúdo do Pensamento mostra-nos a essência do ser, o elemento mais refinado e sublime da pessoa e aquilo que ela tem de mais íntimo dentro de si. A dificílima tarefa de avaliação do conteúdo do pensamento remete-nos a um dos campos mais polêmicos da argüição do ser humano: a valoração de suas idéias.

Entre o examinador e o examinado vibram as mais variadas tendências culturais, as mais diversas inclinações filosóficas, todas as sutilezas da ética, da moral e da religião, deparam-se ainda, a tonalidade afetiva e a natureza dos sentimentos pessoais de cada um. Portanto, julgar idéias é sinônimo de julgar pessoas, uma atitude tão incrível quanto julgar a arte, tão espinhosa quanto definir a beleza. O bizarro e o majestoso saltam logo aos olhos, mas entre um e outro há uma infindável variação de nuances entre o sadio e o patológico.

Examinando o Conteúdo do Pensamento estaremos tocando o cerne da personalidade, o miolo do ser psíquico e o resultado final em que o indivíduo se encontra neste dado momento. O Conteúdo do Pensamento comporta todo perfil dos conceitos, dos juízos, da atividade intelectiva e da afetividade de cada um.

A psicologia evolutiva aponta para a prevalência do Pensamento Mágico no homem primitivo, tal como uma espécie de pensamento pré-lógico, onde as fronteiras entre o real e o irreal são demasiadamente imprecisas. Tal Pensamento Mágico está ainda bastante presente nas crianças e em adultos carentes de um socorro imediato às suas angústias e impotências. Está bem sabido, conforme Nobre de Melo observa, que esta não é a maneira habitual de pensar e de proceder do homem adulto e civilizado de nosso tempo. Este ser civilizado deve pautar sua conduta pelos princípios que regem o Pensamento Lógico ou Pensamento Reflexivo.

Há, entretanto, na mentalidade deste homem civilizado, um grande número de reminiscências residuais primitivas e mágicas que vivem se reativando em circunstâncias especiais, tais como na ansiedade, na paixão, na incerteza, no sofrimento inconsolável, no perigo iminente e na desrazão . É assim que o ser humano moderno, motivado por sua angústia, insegurança e sofrimento, será capaz de apelar ao sobrenatural e à fantasia. É desta forma, subestimando a lógica e a razão absoluta, que nosso pensamento acabará tocando o irracional e a magia através de práticas individuais e íntimas variadas.

Assim sendo, constatamos, num sem-número de sistemas culturais e numa infinidade de pessoas, a utilização de todo um vasto arsenal de recursos mágicos para aplacar a angústia e o desespero. Aceitando esta convivência paralela e harmônica do mágico e do lógico na consciência do homem normal, podemos entender melhor o astronauta que não dispensa seu pé-de-coelho, ou o cientista que carrega uma pirâmide de cristal, o criminoso que porta um crucifixo, o aluno que só entra em provas sempre com o mesmo lápis, o jogador que veste a mesma cueca por ocasião de uma partida importante e assim por diante. O Pensamento Mágico e primitivo revive sempre nas crianças, esporadicamente nos adultos normais e predomina nos estados mórbidos ou de grande sofrimento emocional.

É desta forma que surpreendemos o irreal e ilógico no conteúdo e nas elucubrações do pensamento supervalorizado, delirante, obsessivo ou fóbico. Tais atitudes mentais são consideradas como uma espécie de regressão da personalidade, onde vemos surgir toda a simbólica ancestral dos estágios mais remotos da evolução psicológica da espécie humana. São mecanismos de defesa mantidos em estado de latência mas susceptíveis de reascenderem todas as vezes em que se proceder uma ruptura no equilíbrio funcional da personalidade.

O Juízo e a Lógica, por outro lado, são duas operações intelectuais exercidas pelo pensamento reflexivo ou lógico. Porém, não obstante, nossos juízos estão sempre impregnados pela afetividade e pela vontade, de tal forma que todo julgamento é predominantemente subjetivo. Conforme Nobre de Melo, pode-se dizer que um juízo crítico, por mais fundamentado que possa ser, revela, às vezes, muito mais a natureza da pessoa que julga do que a qualidade da coisa julgada. Desta forma a própria razão, objeto do raciocínio lógico, também deve passar pela individualidade afetiva e, portanto, terá sempre uma racionalidade relativa por excelência.

Não será demais enfatizar que, em se tratando de conteúdo do pensamento, devemos levar em consideração todas as querelas sócio-culturais que permeiam a existência da pessoa considerada. A valorização do pensamento como um todo deverá, obrigatoriamente, relevar todas as circunstâncias atreladas ao panorama vivencial. Não fosse assim, com toda a certeza um dinamarquês consideraria um fenômeno francamente psicótico um pai de santo da Bahia. Da mesma forma, seria possível, à um observador menos avisado, classificar os japoneses kamikazes dentro das depressões suicidas.

Assim, o pensamento flui em função das associações e da forma. Representa um modo de ligação entre conceitos, uma seqüência de juízos e o encadeamento lógico de conhecimentos, de maneira dinâmica e contínua. Por outro lado, pode o pensamento abstrair-se em pressuposições hipotético-dedutivas, sem relação obrigatória com a realidade objetiva, em operações formais que aparecem no ser humano à partir dos 11 ou 12 anos.

Segundo Bleuler, no pensamento também está incluído algo de energético que se origina da afetividade: a finalidade, o conteúdo, o ritmo, a fluência e o tipo de pensamento são dirigidos pelas necessidades, interesses e tendências atuais. Emoções intensas, estado de ânimo, grau de vigília e cansaço podem modificar o pensamento. … “no pensamento vive, portanto, o homem em sua plenitude”.

O conhecimento humano representa um processo que começa com a sensação e termina com o raciocínio dialético. A sensação e o raciocínio são momentos diferentes, aspectos ou graus do mesmo processo do conhecimento. Por isso, não se pode separá-los. O mundo exterior age sobre nossos órgãos dos sentidos, provocando neles as sensações, e essas sensações em conexão indissolúvel com a atividade do pensamento oferecem o conhecimento dos objetos e de suas propriedades.

Sob a denominação de alterações do pensamento estudam-se as alterações da segunda fase do processo do conhecimento, isto é, os distúrbios do conhecimento racional ou intelectual constituído pela formação dos conceitos, a constituição dos juízos e elaboração do raciocínio.

Idéias Supervalorizadas (sobrevalorizadas)
As idéias podem conter uma sobrevalorização ou superestima, caracterizando assim aquilo que leigamente conhecemos por fanatismo. Com o passar do tempo toda a personalidade passa a ser absorvida pela Idéia Supervalirozada, a qual passa a exigir que se coloque à sua disposição todo comportamento do indivíduo. Esta pessoa, por sua vez, será insuflada até o limite de verdadeiras façanhas ou atitudes heróicas, quando não, poderá ser protagonista de tragédias monumentais. Encontramos o fanatismo presente em variadas figuras de nosso mundo cultural, em heróis épicos, em líderes religiosos e políticos, em personalidades carismáticas (como líderes religiosos, promovedores de suicídios coletivos).

Outra curiosidade que freqüentemente acompanha a trajetória dos indivíduos fanatizados é o fato de seu fanatismo aumentar ainda mais diante das situações que coloquem em risco a hegemonia de seus ideais. Isso faz com que suas atitudes adquiram muito mais ânimo e energia e se direcionem com heroísmo ao combate dos inimigos.

Com muita freqüência as Idéias Supervalorizadas coexistem com uma intelectualidade normal, portanto, até certo ponto, tais pacientes continuam gozando de perfeita mobilidade social e satisfatório desempenho ocupacional. Como a personalidade toda acaba por ser possuída pelas Idéias Supervalorizadas, logo a conduta social e ocupacional passam a servir aos propósitos fanatizados. Vem daí o empenho descomunal com que tais indivíduos atiram-se às suas tarefas, desde que, estas, como dissemos, atendam as aspirações superestimadas.

De modo geral, a idéia superestimada, prevalente ou supervalorizada reflete os traços dominantes da personalidade do indivíduo, daí a razão pela qual ele se identifica de modo completo com o seu conteúdo. De modo geral, as idéias superestimadas exercem uma influência danosa sobre o pensamento, orientando-o de maneira inflexível em determinada direção. Essas idéias podem ser consideradas patológicas quando estão em francas oposição ao ambiente e à lógica comum à todos e adquirem esse caráter francamente patológico quando impulsionam a conduta do indivíduo também por caminhos contrários à lógica e à razão. A diferença entre essas idéias e as idéias delirantes é que nas supervalorizadas, faltam as características principais dos delírios, tais como a certeza subjetiva, a impossibilidade de influência e de conteúdo e o fato de não serem totalmente estranhas ao eu como ocorre no delírio.

Os indivíduos perdidamente enamorados, os cientistas, magistrados, militares, sacerdotes, políticos, seguidores de seitas esdrúxulas, cultuadores da saúde e do corpo, integrantes de cultos exóticos, pesquisadores de fenômenos ocultos e sobrenaturais, simpatizantes de entidades que pesquisam extra-terrestres, etc, quando possuidores de personalidade mais frágil e tenuamente atrelada à realidade, podem manifestar Idéias Supervalorizadas acerca de suas atividades e, ao mesmo tempo, como dissemos, conseguir manter uma satisfatória capacidade para o convívio social. Sem dúvida, esta situação mental limítrofe ou borderline aumenta a periculosidade destes indivíduos, principalmente tendo em vista o fato de que nosso sistema sócio-cultural nem sempre tem critérios para diferenciar o ideal do possível. A retórica, a eloqüência, a boa apresentação social e, às vezes, um diploma universitário ou uma boa conta bancária têm sido condições suficientes para atestar a sanidade mental, principalmente se a pessoa estiver trajando terno e gravata.

Há sempre a possibilidade das Idéias Supervalorizadas contaminarem outras pessoas, notadamente quando divulgadas por alguém com poder de projeção social. Não é incomum um fanático conseguir lotar o estádio do Maracanã com 150 mil pessoas, dispostas a doarem seus bens e despojarem-se de seus óculos mediante a promessa de que estarão curados de seus problemas de visão.

Se as Idéias Superestimadas conseguirem atender os anseios íntimos dos espectadores elas, sem dúvida, os contaminarão. Numa retrospectiva histórica podemos detectar grandes grupamentos sociais que se deixaram envolver por Idéias Superestimadas, convenientemente propagadas, as quais resultaram em verdadeiro holocausto. E não faltam, hoje em dia, mais e mais novas correntes seguidoras de verdadeiros ideais supervalorizados à respeito de variadíssimos temas de nosso cotidiano: a xenofobia, o nacionalismo, a “verdadeira palavra de Cristo“, a cultuação do corpo, o esdruxulismo de antigos conhecimentos orientais (os quais, se fossem tão pródigos, teriam coletado inúmeras invenções para o benefício da humanidade, como por exemplo, as vacinas, a eletricidade, o rádio, o raio x, etc), e outras excentricidades típicas de quem não consegue se adaptar ao convencional de sua cultura.

Idéias Obsessivas
A intromissão indesejável de um pensamento no campo da consciência de maneira insistente e repetitiva, reconhecido pelo indivíduo como um fenômeno incômodo e absurdo, é denominado de Pensamento Obsessivo. Portanto, para que seja Obsessãoé necessário o aspecto involuntário das idéias, bem como, o reconhecimento de sua conotação ilógica pelo próprio paciente, ou seja, ele deve ter crítica sobre o aspecto irreal e absurdo desta idéia indesejável.

Por definição, o pensamento obsessivo se constitui de representações que, sem uma tonalidade afetiva explicativa, aparecem na consciência com o sentimento de persistência obrigatória, impossibilitando seu afastamento por esforços voluntários e, conseqüentemente, dificultando e entorpecendo o curso normal das representações, mesmo que o indivíduo se dê conta de sua falta de fundamento, a falsidade de seu conteúdo e o caráter francamente patológico do fenômeno.

As Obsessões estão tão enraizadas na consciência que não podem ser removidas simplesmente por um aconselhamento razoável, nem por livre decisão do paciente. Elas parecem ter existência emancipada da vontade e, por não comprometerem o juízo crítico, os pacientes têm a exata noção do absurdo de seu conteúdo mental. Em maior ou menor grau, as Idéias Obsessivas ocorrem em todas as pessoas, notadamente quando crianças. Podem aparecer, por exemplo, como uma musiquinha conhecida que “não sai da cabeça“, ou a idéia de que pode haver um bicho debaixo da cama, ou que o gás pode estar aberto apesar da lógica sugerir estar fechado.

Em crianças aparecem como um certo impedimento em pisar nos riscos da calçada, uma obrigatoriedade em contar as árvores da rua ou os carros que passam, etc. Estas idéias obrigatórias, quando exageradas e promovedoras de significativa ansiedade ou sofrimento, constituem quadro patológico.

A temática das Idéias Obsessivas pode ser extremamente variável, entretanto, em grande número de vezes diz respeito à higiene, contaminação, transmissão de doenças, bactérias, vírus, organização ou coisas assim. É muito freqüente também a existência deIdéias Obsessivas sobre um eventual impulso suicida, como por exemplo saltar da janela de edifícios, ou em ser acometido subitamente por impulsos de agressão e ferir pessoas, principalmente os filhos. Neste último caso a obsessão está justamente em acreditar que, diante de um mal estar súbito, vir a perder o controle e executar, impulsivamente, aquilo que sugere tais idéias.

São muitos os exemplos de pessoas que adotam uma conduta excêntrica motivadas pela obsessão da contaminação ou pelo medo continuado de contágio diante de qualquer coisa que lhes pareça suspeita. Há ainda, casos de pessoas que se sentem extremamente desconfortáveis quando próximas de objetos pontiagudos, facas, foices, etc, devido a idéia indesejável de que podem, repentinamente e misteriosamente, perder o controle e matar uma pessoa querida. Um paciente teve que retornar das férias porque, estando hospedado num apartamento do quinto andar, ficava o tempo todo ansioso devido a idéia de que poderia saltar pela janela se um impulso incontrolável viesse à sua consciência. Em todos estes casos o paciente tem pleno juízo do absurdo de seus pensamentos e reconhece, sofridamente, sua impotência em controlá-los.

Desta feita, a Obsessão é um processo mental que tem caráter forçado, uma idéia associada a um sentimento penoso que se apresenta ao espírito de modo repetido e incoercível. São idéias impostas ao psiquismo, incômodas e sentidas como involuntárias, as quais entram na mente contra uma resistência consciente.

Por outro lado a similaridade entre Obsessões e Fobias (tratadas mais adiante) foi observada já em 1878 por Westphal, criador do termo Fobias Obsessivas. Seriam medos que dominam a consciência, apesar da vontade do paciente que não consegue suprimi-los, embora reconheça-os como anormais. Aliás , vê-se muito bem, nos exemplos supra-citados, o componente de medo que normalmente acompanha as Idéias Obsessivas. A Obsessão de doença e contaminação pode ser entendida como umaFobia de doença, uma ruminação mental sem fim em torno da possibilidade de sofrer qualquer tipo de doença .

Ainda que o fenômeno obsessivo seja distinto do fenômeno fóbico, é sempre bom ter em mente que ambos podem ser faces distintas de uma mesma moeda ou, o que mais provavelmente poderia ser, a fobia originando obsessão e vice-versa.

Fobias
Tal qual a Obsessão, a Fobia intromete-se persistentemente no campo da consciência e se mantém aí independentemente do reconhecimento de seu caráter absurdo. A característica essencial da Fobia consiste num temor patológico que escapa à razão e resiste a qualquer espécie de objeção, temor este dirigido a um objeto (ou situação) específico .

A Fobia é um medo absurdo, específico e intenso o qual, na maioria das vezes, é projetado para o exterior através de manifestações próprias do organismo. Essas manifestações normalmente tocam ao sistema neurovegetativo, tais como: vertigens, pânico, palpitações, distúrbios gastrintestinais, sudorese e perda da consciência por lipotímia. As manifestações autossômicas externadas pela fobia têm lugar sempre que o paciente se depara com o objeto (ou situação) fóbico.

O pensamento fóbico é tão automático quanto o obsessivo e o paciente tem plena consciência do absurdo de seus temores ou, ao menos, sabem-no como completamente infundados na intensidade que se manifestam. Resistem, os temores, a qualquer argumentação sensata e lógica. Aliás, o medo só será fóbico quando considerado injustificável pelo próprio paciente e, concomitantemente, for capaz de produzir reações adversas comandadas pelo sistema nervoso autônomo.

O medo na Fobia ataca de modo incontrolável diante de objetos e circunstâncias de todo naturais e, diante das quais, mesmo o paciente reconhecendo como ridículas, não poderá dominar-se. A denominação das Fobias diversas guarda uma relação etimológica com as situações desencadeadoras: Agorafobia (espaços abertos ou sair de casa); Claustrofobia (lugares fechados); Acrofobia (alturas); Ailérofobia (gatos); Antropofobia (gente); Zoofobia (animais); Xenofobia (estranhos); e assim por diante.

As Fobias podem ocorrer juntamente com qualquer outro sintoma psiquiátrico, podem fazer parte de variados graus de ansiedade e de depressão ou ainda, em várias neuroses e psicoses. De fato, não se trata de nenhum sintoma patognomônico de algum quadro psicopatológico específico. (Veja mais sobre Fobias em Transtornos Fóbico-Ansisos)

Delírios
Jaspers
define o Delírio com sendo um juízo patologicamente falseado e que apresenta 3 características:

1. Uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável;
2. Impenetrabilidade e incompreensibilidade psicológica para o indivíduo normal, bem como, impossibilidade de sujeitar-se às influências de correções quaisquer, seja através da experiência ou da argumentação lógica e;
3. Impossibilidade de conteúdo (da realidade).

Esta tríade proposta por Karl Jaspers é aceita pela psicopatologia clássica, notadamente pela tendência organodinâmica. É contestada, principalmente os itens 2 e 3, por autores psicodinâmicos, mais por uma questão de nosografia que de fenomenologia.

A prática clínica da psiquiatria deixa bem claro a constatação da primeira regra deJaspers. Diante de um paciente delirante, cuja ruptura com a realidade é evidente, não conseguimos demover tal Conteúdo do Pensamento mediante qualquer tipo de argumentação. Caso o paciente deixe-se convencer pela argumentação da lógica, razoavelmente elaboradas pelo interlocutor, decididamente não estaremos diante de um delírio, mas sim de um engano por parte do paciente ou de uma formação deliróide.

Para ser Delírio a convicção dever ser sempre inabalável. A argumentação racional não deve afetar a realidade distorcida ou recriada de quem delira, independentemente da capacidade convincente e da perseverança daquele que se empenhar nesta tarefa infrutífera.

Em relação à segunda regra, Jaspers alerta sobre a impossibilidade do Delírio ser compreendido por pessoas que mantém vínculo sólido com a realidade. A lógica da realidade do delirante não é aplicável à lógica dos indivíduos normais, daí a falta de compreensão psicológica do Delírio: carece relação entre a temática delirante e os elementos da realidade, notadamente com a conjuntura vivencial do paciente.

Ao postular esta regra tríplice Jaspers definia aquilo que chamamos de Delírio Primário, ou seja, uma idéia falseada da realidade, cujas fantasias não desfilam elementos redutíveis de uma realidade especialmente vivida. Em outras palavras, esta irredutibilidade do Delírio quer dizer que não pode haver uma relação compreensível entre o tema delirante e possíveis vivência causadoras. O que se confunde, às vezes, são histórias de afastamento da realidade posteriores à traumas emocionais mas, como já dissemos, trata-se aqui de idéias deliróides e não de delírios francos.

Caso o Delírio se apresente de forma a sugerir um determinado mecanismo defensivo contra uma forte ameaça psíquica, normalmente angustiante, falamos em Delírio Secundário ou Idéia Deliróide. Aí sim, podemos reduzi-lo à uma análise vivencial e psicodinâmica plausível. Foi o que aconteceu com um jovem de 23 anos, vítima de um acidente do trabalho que lhe custou a perda de quatro dedos da mão direita. Nos dias seguintes ao acidente começou apresentar uma expressiva inadequação afetiva (ao invés de aborrecido, mostrava-se feliz) e com um delírio no qual julgava-se Deus, cheio de poderes, auto suficiente e ostensivamente ameaçador para com as pessoas que dele duvidavam.

Resumidamente, está claro que tal ideação emancipada da realidade era por demais compreensível: tratava-se de um mecanismo de defesa psicotiforme no qual, emCompensação à mutilação e deficiência o seu poder passou a ser infinito. Trata-se pois de uma Idéia Deliróide (ou um Delírio Secundário), o qual habitualmente pode fazer parte de numa Reação Psicótica Aguda.

Delírios com temática semelhante ou mesmo igual ao exemplo exposto podem aparecer em pessoas sem nenhuma vivência justificadora, sem nenhuma possibilidade de redução dinâmica vivencial. Apenas aparecem e, aí sim, na impossibilidade de conteúdo ou de compreensibilidade estaremos diante de Delírio Primário. A Idéia Deliróide seria conseqüência de um estado afetivo subjacente e perfeitamente relacionável com uma vivência expressiva, por isso secundário.

A Idéia Delirante, ou Delírio, espelha uma verdadeira mutação na relação eu-mundo e se acompanha de uma mudança nas convicções e na significação da realidade . O delirante encontra-se imerso numa nova realidade de forma à desorganizar a sua própria identidade e se desorganiza pela ruptura entre o sujeito e o objeto, entre o interno e o externo, ou seja, entre o eu e o mundo.

Apesar do romantismo literário acerca da presumível viagem libertadora proporcionada pelos delírios por libertar o delirante das agruras de uma realidade sofrível, esta alteração do pensamento é considerada pela psicopatologia como uma das formas mais óbvias de empobrecimento mental, uma fixação regressiva e doentia que coloca o paciente num estreitíssimo corredor de possibilidades, numa quase ausência de livre arbítrio. Quer dizer exatamente o contrário daquilo que considerava a patologia da libertação; o delirante não é capaz de pensar aquilo que ele quer pensar, não tem possibilidades de admitir alternativas, falta lhe opção de raciocínio e é obrigado a conduzir-se estritamente nos trilhos estabelecidos pela sua doença.

É tal o empobrecimento mental do delirante que Henri Ey trata do assunto no capítulo reservado à Semiologia da Alienação da Pessoa e considera o Delírio como uma modificação radical das relações do indivíduo com a realidade. Trata-se, conforme Ey, de um distúrbio que se relaciona essencialmente com a concepção do mundo, manifestando-se através de uma inversão das relações do Ego com a realidade, enfim, uma alienação do Ego.

Segundo Kraepelin, “Delírios são idéias morbidamente falseadas que não são acessíveis à correção por meio do argumento”. Bleuler, por sua vez, dizia que “Idéias delirantes são representações inexatas que se formaram não por uma causal insuficiência da lógica, mas por uma necessidade interior. Não há necessidades senão afetivas”, determinava ele.

Como percebemos, Kraepelin parece deter-se mais naquilo que entendemos por Delírio Primário, enquanto Bleuler já ventilava uma possibilidade do Delírio Secundário. Segundo Kurt Schneider a Ideação Delirante pode apresentar-se através de 3 configurações semiológicas :

1. – Percepção Delirante
Fala-se em Percepção Delirante quando o paciente atribui, à uma percepção normal da realidade, um significado anormal sem que, para isso, existam motivos compreensíveis. Não existe, neste caso, uma verdadeira alteração da percepção mas é a interpretação dessa percepção que sofre um juízo crítico distorcido, patológico e com uma significação muito especial. 

Nas Percepções Delirantes um acontecimento trivial, uma palavra despretensiosa, um acontecimento cotidiano, são representados com uma significância toda particular e morbidamente distorcidos por interpretações mágicas, ameaçadoras e cheias de conotações misteriosas. Normalmente as Percepções Delirantes se fazem em caráter de auto-referência, ou seja, tudo o que acontece à sua volta passa a referir-se ao paciente, a ele dirigido e com propósitos claramente comprometedores de sua pessoa.

Um paciente, exemplo de ideação auto-referente, ouvindo na televisão uma orientação sobre a AIDS, considerou haver uma suspeita geral acerca da possibilidade dele estar sofrendo da doença e, para ele, os comentários da TV eram uma prova de que todos estivessem suspeitando de sua contaminação. Um outro, vendo que a esposa tinha modificado a disposição dos frascos de perfume sobre a penteadeira, considerou isso um indício seguro de estar sendo traído. Mais um, vendo que seu cunhado havia comprado relógio novo, deduziu estar ele recebendo dinheiro de seus inimigos com o propósito de denunciá-lo.

Estas Percepções Delirantes normalmente compõem aquilo que chamamos de Delírio Sistematizado, ou seja, uma ideação organizada tal qual uma historieta; com começo, seqüência e fim. A temática central, na maior parte das vezes, é de referência ao paciente. Assim, Delírio de Referência é uma idéia delirante cuja temática implica sempre em prejuízo, perseguição, dano ou punição do paciente. É um tipo de Delírio frequentemente encontrado nas Percepções Delirantes.

2. – Ocorrência Delirante
Resulta de uma crença delirante, puramente subjetiva, sem a necessidade de um estímulo a ser percebido. Não há um estímulo percebido com significação anormal, como acontece na percepção delirante, o que existe é uma Ideia Delirante independente da motivação ambiental.

O conteúdo da Ocorrência Delirante se refere, principalmente, a convicções de ordem religiosa, política, de capacidades especiais do paciente, podendo haver também uma temática de ciúme e perseguição. É sinônimo de Representações, Cognições ouIntuições Delirantes.

A caricatura do louco, estigmatizado pelo indivíduo que se considera Napoleão Bonaparte, exemplifica bem uma Ocorrência Delirante, ou seja, sem necessidade de interpretar estímulos ambientais ele simplesmente se acha Napoleão. Nossos exemplos mais comuns são de pacientes que se julgam possuidores de poderes sobrenaturais, telepatas, místicos, porta-vozes de divindades. Também os perseguidos, como uma senhora que referia uma cruel perseguição pelos vizinhos. Estes, seguidamente, viviam colocando animais peçonhentos em sua casa, instigando toda sorte de infortúnios. Na realidade estes vizinhos nem existiam, o prédio ao lado era um conjunto de escritórios.

3. – Reação Deliróide
Em artigo de 1910, Jaspers relata dois casos que substanciam brilhantemente essa divisão entre Ideia DeliranteIdeia Deliróide. Ele sustentou, a certa altura, que o verdadeiro delírio de ciúme diferia de qualquer outra forma de produção mórbida de ciúme porque, em primeiro lugar, não partia de fatos reais (premissa falsa), logicamente aceitáveis e razoavelmente possíveis. Depois, porque não guardava nenhuma relação compreensível com disposições específicas de personalidade, com eventuais preocupações, com alguns complexos, conflitos ou com a dinâmica dos acontecimentos atuais.

Para Jaspers, o verdadeiro delírio de ciúme não podia, pois, ser explicado como traço de uma personalidade anormal no curso de seu desenvolvimento, mas sim, como algo novo que se inseria, em dado instante na linha vital do indivíduo, fazendo supor um desvio abrupto ou de uma quebra, uma profunda transformação qualitativa da própria estrutura pessoal.

Desde essa época foram estabelecidas as diferenças essenciais entre as estruturas Delirantes e Deliróides. Jaspers afirmava que o verdadeiro delírio é um fenômeno primário por excelência. Como fenômeno primário ele queria dizer psicologicamente incompreensível para o homem normal, portanto, sem compreensibilidade à nossa personalidade e sem nenhuma semelhança com eventuais vivências psíquicas que somos capazes de representar coerentemente.

Essas idéias resultam totalmente estranhas para nós, sendo, por isso, impenetráveis psicodinamicamente. Além do aspecto impenetrável, os juízos verdadeiramente delirantes devem trazer ainda o timbre da certeza subjetiva absoluta, da convicção interior irremovível. Essa não-influência psicológica seria, segundo Jaspers, outra característica típica da idéia delirante verdadeira, atestando assim sua irredutibilidade e incorrigibilidade, tanto por meio da persuasão lógica e irresistível, como através da evidência esmagadora dos fatos em contrário.

Na Depressão Grave, como sabemos e bem atestou Kurt Schneider, embora a tristeza vital seja considerada primária, no sentido de ser também incompreensível e psicologicamente irredutível, dela deriva e se vincula toda a gama de Idéias Deliróidesdepressivas. Essas Idéias Deliróides são pseudo-delírios ou Delírios Secundários, como os denomina Jaspers, por tomá-los psicologicamente compreensíveis e dentro do quadro clínico geral em que se formam. Atualmente fala-se também em Delírio Humor-Congruentes.

O mesmo fenômeno se observa no tocante às idéias de grandeza, tão bem observadas em estados maníacos como expressão natural do sentimento de onipotência. Nesses casos também devemos considerar o classicamente chamado delírio de grandeza como pseudo-delírio ou Idéias Deliróides, e não só aqueles observados nos maníacos, como também nos raros casos da paralisia geral progressiva.

Nos maníacos estas Idéias Deliróides se mostram compreensíveis e explicáveis em função da forma clínica expansiva da doença e, nos luéticos, são explicáveis, portanto secundários, em razão do processo mórbido orgânico-cerebral subjacente, portanto, são igualmente secundários. Assim, pois, as Idéias Deliróides podem ocorrer em abundância e secundariamente nos estados maníacos e depressivos, nas psicoses orgânicas, em certos oligofrênicos leves , em personalidades psicopáticas, nos sociopatas e nas psicoses reativas.

O tema do delírio, entretanto, não é suficiente para dizermos tratar-se de uma Idéia Delirante ou Deliróide. Assim como Jaspers baseou-se em delírios de ciúme para definir a Vivência Delirante Primária, Bleuler se baseia no mesmo delírio de ciúme, porém em alcoólatras, para discorrer sobre uma Vivência Delirante Secundária.

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Falando ainda sobre a Memória, ela corresponde ao processo pelo qual experiências anteriores levam à alteração do comportamento. Atenção corresponde a um conjunto de processos que leva à seleção ou priorização no processamento de certas categorias de informação; isto é, “atenção” é o termo que refere-se aos mecanismos pelos quais se dá tal seleção.

O sistema nervoso, em seu processo histórico de interação inicial com o ambiente, reage não apenas a estímulos, mas também às contingências espaciais e temporais entre os estímulos, e também destes com suas respostas, num processo de aprendizagem que leva a modificações no seu funcionamento, caracterizando alterações “de-baixo-para-cima”. Com o acúmulo desses registros sobre ocorrências anteriores – memórias no sentido amplo da palavra – e a identificação de regularidades na ocorrência desses eventos, o sistema nervoso passa a gerar previsões (probabilísticas) sobre o ambiente. Então, passa a agir antecipativamente e a selecionar as informações que serão processadas – um processo de “cima-para-baixo” – o que confere grande vantagem adaptativa.1 Uma das consequências desse processo é o desenvolvimento de intencionalidade; ou seja, como resultados almejados podem ser previstos com base em registros sobre regularidades passadas, o sistema nervoso pode (1) gerar ações que levem aos resultados desejados e (2) atuar no sentido de selecionar determinados tipos de informação para processamento adicional, isto é, direcionar sua atenção.

É indiscutível que esse processo de seleção atencional depende não apenas da história prévia do sistema selecionador, envolvendo suas memórias e portanto o significado pessoal e
emocional dos estímulos, mas também de expectativas geradas sobre a pendência de eventos futuros com base (1) nas memórias sobre regularidades passadas e (2) nos seus planos de ação, que dependem também de memórias sobre os resultados de ações anteriores e seu significado afetivo. Assim, é surpreendente que a literatura sobre atenção raramente faça referência à literatura sobre memória pois diversos fenômenos atencionais parecem ser manifestações diretas do funcionamento dos sistemas de memória (ver adiante).

Nesse contexto, parece haver grandes vantagens conceituais em aproximar essas duas abordagens. Postula-se aqui que a associação conceitual envolvendo memória e atenção permite não apenas oferecer explicações parcimoniosas sobre uma diversidade de fenômenos usualmente investigados em estudos sobre atenção, como também gerar  revisões testáveis sobre o desempenho de pessoas em testes que envolvem atenção, considerando a familiaridade dessas pessoas com o material utilizado no teste, possíveis efeitos de treinamento sobre o desempenho ou mesmo explicar a influência da motivação.

Um modelo das relações entre memória e atenção O debate sobre a ocorrência de seleção (1) nos estágios iniciais de processamento, antes do ingresso da informação nos supostos sistemas de capacidade limitada, ou (2) no próprio sistema de capacidade limitada, através da escolha dos estímulos que influenciarão a resposta, enfatiza a existência de dois domínios de processamento. O primeiro parece operar em paralelo e requerer pouco ou nenhum esforço consciente; o segundo operaria serialmente, requerendo esforço e destinação de recursos de um sistema atencional de capacidade limitada. Porém, em processamentos guiados pela especificação (expectativa) do objeto a ser selecionado, haveria seleção nos estágios iniciais.

Aparentemente, a seleção perceptual leva à filtragem de informações, deixando entrar no sistema apenas aquelas relevantes para o indivíduo, mesmo quando não atendidas. Isto é, informações retidas na memória e às quais se atribui relevância (por exemplo, o próprio nome) recebem prioridade no processamento e captam a atenção automaticamente (um processo “debaixo- para-cima”). Similarmente, mas talvez em nível diferente, o processamento de certos estímulos poderá ganhar mais ou menos prioridade em função da atividade na qual a pessoa esteja engajada. Por exemplo, durante o ato de dirigir um carro, estímulos como luzes vermelhas devem receber prioridade no processamento em relação ao mesmo tipo de estímulo, por exemplo, quando se joga tênis.

Em termos neurais, o desempenho de certas atividades treinadas previamente (ou talvez de forma mais ampla, o contexto) deve pré-ativar redes neurais, de modo que o fruto de seu processamento passe a ter prioridade para os sistemas atencionais. Neste caso, a “captação” da atenção dependerá do contexto em que o organismo se encontra (por exemplo, é provável que luzes vermelhas captem a atenção quando se dirige um carro, mas não quando se joga tênis). É como se os sistemas “superiores” tivessem condições de
pré-ativar, “de-cima-para-baixo”, sistemas de processamento, dando maior ou menor prioridade para os resultados do seu processamento em função do contexto. Neste caso, se o estímulo específico aparecer no ambiente, dada essa pré-ativação, haverá a “captação” da atenção para o mesmo, “de-baixo-para cima”.

Portanto, estão envolvidos tanto processos “de-baixo para- cima” como processos “de-cima-para-baixo” nesse tipo de seleção. A escolha de características específicas para filtragem em tarefas de busca visual (por exemplo, um retângulo vertical entre retângulos horizontais ou uma cor específica entre outras cores, ou ainda a busca de uma letra específica entre várias outras) provavelmente envolve processos similares. Da mesma
forma que isso parece possível em relação a estímulos específicos do ambiente, também ocorre em relação ao espaço e ao tempo. Neste caso, o engajamento da atenção ocorreria previamente à estimulação, em função da expectativa do participante de que algo relevante ocorrerá numa porção do ambiente ou num futuro próximo; seguramente, processos “de-cima-parabaixo” estão envolvidos neste caso.

Nem sempre um estímulo que contribui para a resposta torna-se necessariamente consciente 65. O tornar-se consciente pode ser um efeito “a posteriori”, como no exemplo em que o motorista freia em função de um farol que fechou e somente depois de executar a ação, percebe o que se passou. É bem verdade que o sistema para detecção desse estímulo devia estar pré-ativado (“em prontidão”) pelo ato de dirigir (com consequente facilitação
da captação da atenção para luzes vermelhas), para que a ação “frear” fosse desempenhada prontamente ao aparecimento do farol vermelho. Mas isso não implica no fato de que a informação deva tornar-se consciente.

É importante ressaltar que esse tipo de conceituação permite explicar tanto processos de seleção nos estágios iniciais de processamento como nos estágios tardios. Permite também explicar como uma informação relevante não atendida capta automaticamente a atenção, uma vez que todos esses processos dependem do treinamento prévio da rede nervosa e, portanto, de suas memórias.” Leia

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Referências:
Bleuler E. Dementia praecox or the group of schizophrenias. Monograph series on schizophrenia. Vol 1.New York: International University Press; 1950.
Bleuler E. The prognosis of dementia praecox: the group of schizophrenias (Die prognose der dementia praecox: schizophreniegruppe. Algemeine Zeitschrift fur Psychiatrie 1908;65:436-64). In: Shepperd JCM, editor. The clinical roots of the schizophrenia concept: translations of the seminal contributions on schizophrenia. Cambridge: Cambridge University Press; 1967 p. 59-74.
Brown JF (1941). General Psychology: From the Personalistic Standpoint: By William Stern. Translated by Howard Davis Spoerl. New York: The Macmillan Company, 1938.589 pp.. Psychoanal Q., 10:167-167.
Fernández FFundamentos de la psiquiatria actual. 2.ed. Madrid : Paz Montalvo, 1972.
JASPERS K Psicopatologia Geral,1, Atheneu, 2ª. Ed.,1979,SP.
JASPERS KPsicopatologia Geral,2, Atheneu, 2a.ed., 1979, SP.
Kraepelin EDementia praecox and paraphrenia. (From the German 8th Edition of the Textbook of Psychiatry ed.) Edinburgh: E & S Livingstone; 1919. p. 74-5.
Lange EMemory-function approach to the Hall constant in strongly correlated electron systems, Phys. Rev. B 55, 3907 – 3928 (1997).
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